domingo, 6 de dezembro de 2009

P: Quanto a si, é mais provável que trabalhe com livros; tem uma biblioteca de 30 mil volumes. Provavelmente não funciona sem uma lista ou catálogo.

R: Receio bem que, nesta altura, já sejam 50 mil livros. Quando a minha secretária os quis catalogar, pedi-lhe que não o fizesse. Os meus interesses mudam constantemente, tal como a minha biblioteca. A propósito, se os nossos interesses mudarem constantemente, a nossa biblioteca dirá algo de diferente sobre nós. Além disso, mesmo sem um catálogo, vejo-me forçado a lembrar-me dos meus livros. Tenho uma sala para literatura com 70 metros de comprimento. Percorro-a várias vezes por dia e sinto-me bem quando o faço. Cultura não é saber quando morreu Napoleão. Cultura significa saber como vou descobrir isso em dois minutos. Claro que, hoje em dia, posso encontrar esse tipo de informação na internet em menos de um ai. Mas, como disse, com a internet nunca se sabe.

Umberto Eco em entrevista ao jornal I.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Em 2010...

No próximo ano, o clássico "Alice no País das Maravilhas" chega ao cinema pela mão do genial Tim Burton.
O camaleónico Johnny Depp faz parte das personagens...

"Retrato de Tim Burton enquanto surrealista pop" aqui.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

"Editora Bubok publica 450 livros online nos primeiros cinco meses em Portugal" (Jornal I)

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Biblioterapia

Em Londres, no dia em que faliu o Lehman Brothers, nasceu a The School of Life.
"Tem um serviço de consultas médicas de biblioterapia, nas quais o paciente leva para casa uma prescrição de livros apropriados à sua maleita espiritual" (jornal I)

Trata-se de uma consulta fora do normal. "As médicas são uma escritora e uma licenciada em Literatura Inglesa, os doentes falam do tipo de livros de que pensam que precisam e também das suas vidas banais e no final a prescrição de dez livros para animar a alma é enviada para casa por email no belo formato de receita".

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Isabel Allende


















"Por que escrevo? Porque estou cheia de histórias que pedem para ser contadas, porque as palavras me sufocam, porque gosto e necessito, porque, se não escrevo, seca-se-me a alma e morro."
Essa é afinal a essência de um escritor.

Estranhamente, o primeiro livro que li de Isabel Allende foi "Filha da Fortuna" e fiquei completamente rendida à forma como escreve. Conta a história do personagem com a fluidez de quem recorda tempos áureos e imediatamente transporta-nos para o meio da acção. Descreve acontecimentos como quem renova lembranças, sem pressa de revelar tudo e, com pormenores, vai aguçando a nossa curiosidade.
ADOREI o livro e o bichinho ficou, pedindo mais histórias.
E foi quando resolvi conhecer a história de Aurora del Valle. A sua infância intermitente. A sua insistência em desvendar alguns dos mistérios que envolvem os primeiros anos da sua vida. Os fantasmas que sempre a visitam durante a noite.
Assim ficamos a conhecer a portentosa e ambiciosa avó, Paulina del Valle, que acolhe Aurora, que cresce num ambiente privilegiado para o tempo.
Aurora desenvolve um interesse precoce pela fotografia e é com puro deleite que absorvemos cada imagem, cada um dos sábios enunciados de Juan Ribero, o seu mestre. Amanda Lowell, a única que a levou a sério, dizia-lhe: «Uma boa fotografia conta uma história, revela um lugar, um acontecimento, um estado de espírito, é mais poderosa que páginas e páginas de escrita».

Em "Retrato a Sépia" recordamos alguns dos personagens de "Filha da Fortuna", onde a própria escritora se deixa envolver por um misto de escrita entre o histórico e a ficção, entre a memória e os segredos de família, a sua família.
Uma história que se debatia por ver a luz do dia.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Platero e Eu

Um livro pequeno, feito de pequenos episódios ocorridos com um burro e o seu dono, na Espanha do início do séc. XX.
Escrito por Juan Ramón Jiménez (1881-1958), Nobel da Literatura em 1956, é um livro bucólico. Quase lembra Sancho Pança e o seu espírito pachorrento.
Publicado em 1914, trata-se de um “memorável livro em prosa poética, com elementos autobiográficos. Porque poemas em prosa são os capítulos que o compõem: prosa musical impregnada de ternura e beleza”.
Ler “Platero e Eu” é como estar debaixo de uma árvore a deliciar-nos com a brisa da tarde num dia quente de verão…


O próximo livro?
Hummm... não sei.
"Caim" já está na prateleira. A polémica sobre o livro não me dá nem retira vontade de o ler. Mas não sei se é o que me apetece ler neste momento.
De alguma forma, Marginália, passaste-me algo da tua paixão por romances históricos... e há ali um sobre Henrique VIII, a Inglaterra do séc XVI, numa altura em que se encontra dividida "entre os que são fiéis à Igreja Católica e aqueles que são leais ao rei e à nova Igreja Inglesa"... depois da tua conhecida Ana Bolena ter perdido a cabeça.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Há livros que nos caem nas mãos e percebemos de imediato para quem são.

domingo, 1 de novembro de 2009

As palavras de Lobo Antunes

António Lobo Antunes é para mim um escritor desconhecido.
Nunca li nenhum livro dele. Só alguns textos que publica em jornais e revistas. Aprecio alguns, noutros não consigo "entrar".
Já folheei romances dele, mas também não consegui "entrar". Lobo Antunes é para mim o que Saramago é para outros leitores. Mas gosto de muitos dos títulos que dá às suas obras: têm qualquer coisa de poético.
No entanto, as suas entrevistas têm algo que me seduz. Não sei se é aquele tom pausado, aquele aspecto de homem vestido de tristeza, metido "numa bolha de tristeza" (como refere a certa altura a propósito de doentes com quem contactava enquanto ele mesmo estava doente, no Hospital Santa Maria), a forma crua como fala, aquelas frases de uma simplicidade e beleza desconcertantes que atira para cima da mesa...

Aqui a entrevista que deu à Judite Sousa há algumas semanas.

Como há frases de Lobo Antunes que me deixam extasiado, cito duas desta entrevista:
- "As pessoas são como arco-íris. Nós nunca nos entendemos nas sete cores, mas se nos entendermos em três ou quatro já é muito bom".
- "Espero que de certo modo tenha conseguido conservar a virgindade do olhar. Se consegui isso já não é mau."

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Outras leituras

O Palavras Impressas é um blogue de palavras e de impressões provocadas por LIVROS.
Tanto a MARGINÁLIA como eu somos devoradores de livros. Ambos gostamos de folhear livros, de comprar livros, de entrar noutras vidas, de deixar a imaginação viajar ao sabor de cada linha impressa numa folha branca...

Mas sabemos que há outros mundos e outras leituras para além deste espaço. Por isso, este passa a estar aberto à colaboração de todos aqueles que queiram deixar uma opinião sobre um livro que estejam a ler ou que tenham lido, uma frase que os tenha tocado de modo particular, uma simples sugestão de leitura, e muito mais...

Apenas uma condição: tem de ser sobre livros. Não importa o género literário. Mas não queremos tratados de literatura :)
As colaborações deverão ser enviadas para o mail:

palavras.impressas@gmail.com


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Caim

Tenho uma certa aversão a livros polémicos. Não sei dizer ao certo porquê, simplesmente prefiro ler esta ou aquela obra quando já ninguém falar nela.
Talvez quando a poeira assentar pense (e REPITO talvez) em ler Caim. Saramago ainda não conseguiu arrebatar-me com a sua escrita.
Assim,
GONIO, o espaço é todo teu.
Ou...se mais alguém quiser deixar um comentário ao livro, podemos inverter as coisas e este espaço passa a ser vosso. Teremos todo o gosto em publicar aqui a vossa opinião.

sábado, 24 de outubro de 2009

O Solista

Acreditar no melhor das pessoas, de cada um, apesar dos momentos “não”.
Esta poderia ser a grande mensagem deste livro que me caiu nas mãos quase por acaso. Sim... é certo que já tinha visto uma apresentação do filme que me deixou muito curioso e expectante…

Steve Lopez, um colunista do Los Angeles Times, encontra nas ruas Nathaniel Ayers, um sem abrigo a tocar o seu violino de duas cordas, e vê ali um tema para abordar na sua coluna no jornal. No entanto, começa a descobrir mais qualquer coisa para além do que vê naquele pobre homem.
É um homem com talento, que tinha estudado numa das melhores escolas de música americanas, tinha sido um jovem promissor, a quem uma doença mental atirou para as ruas e para a miséria. Passa os dias pelas ruas, agarrado ao seu carrinho de supermercado onde leva tudo o que possui.
Steve Lopez vai-se envolvendo no que inicialmente era apenas material para mais um artigo de jornal. E vai querer melhorar-lhe a vida, tirá-lo da rua, permitir-lhe ter uma vida digna.
Às tantas começa a receber instrumentos oferecidos pelos leitores. Vai à procura do passado de Nathaniel, dos seus familiares. E a cada dia vai sendo confrontado com situações que lhe dizem que deve desistir.
Nathaniel, devido ao problema de saúde que tem, parece ser duas pessoas. Ora dócil e simpático, ora agressivo, mal-educado, rezingão, mal-agradecido. Lopez questiona-se até que ponto é possível ajudar alguém e estar disponível para esse alguém.
Ao longo de muitos meses há avanços e recuos, esperança e desilusões, sonhos e pesadelos a acontecer quase em simultâneo…
A ligação entre ambos vai-se tornando cada vez mais forte…
E… mais não digo.

Apenas que vale a pena acreditar nas pessoas, no melhor de cada um. Não desistir das pessoas.

Sem ser um livro com uma escrita cativante, a história – baseada em factos verídicos – agarra-nos e leva-nos de página em página. Queremos sempre saber como irá reagir Nathaniel a cada “prova” a que é sujeito, e como vai Steve Lopez encontrar forças para conciliar este desafio, a vida no jornal, a vida familiar.

Há uma pergunta que ao longo da história me foi surgindo a espaços: até que pondo podemos interferir na vida de alguém? Até onde essa acção é legítima, mesmo que para o bem do outro?

“O Solista”… alguém que toca sozinho.
Solista… solo… alguém só, sem mais ninguém para além de si mesmo. Sem relações, sem nada.

Lido o livro, é tempo de ver o filme.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Papisa Joana


Donna Woolfolk Cross, escritora norte-americana, viu o seu livro "A Papisa Joana" convertido em filme pela mão do realizador alemão Soenke Wortmann.
O lançamento ocorreu na Feira do Livro de Frankfurt (espero que chegue até nós em breve).


Foto: EPA/Frank May (via jornal OJE)
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Sobre o livro:
Numa época em que o saber escolástico era vedado às mulheres, JOANA desafia um mundo poderoso e conquista uma posição que a tornou numa das mais respeitáveis personagens do seu tempo.
Recomendo vivamente a leitura do livro. Este é o relato marcante de uma mulher que construiu uma história fantástica – a sua história, pese embora a igreja queira negar a sua existência.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A escolha

O Nobel da Literatura deste ano foi atribuído a Herta Müller.

Nunca tinha ouvido falar dela, não vou fazer de falso entendido e culto.

Alguém já leu alguma obra dela?

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Nobel da literetura 2009

Na próxima quinta-feira será anunciado o vencedor do Nobel da Literatura.
Já há apostas sobre quem irá ser reconhecido este ano aqui.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Padrinho de Mário Puzo

Quando se começa um livro, o tempo torna-se relativo. A leitura reveste-se de puro deleite e não deve ser apressada por desígnios menos nobres como a urgência de chegar ao fim, como se a história dependesse deste último capítulo para fazer sentido.
Há livros assim, mas este não é um deles.
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A história é sobejamente conhecida.
Possivelmente já todos viram o filme de Francis Ford Coppola.
Eu ainda não tive esse prazer e por isso não posso dizer se é ou não uma cópia fiel do livro, mas a julgar pelos galardões que recebeu em 1973, um sucesso de bilheteira deve ter sido com toda a certeza.
Sobre o livro:
Começo por destacar a passagem que, quanto a mim, resume a personalidade de Don Corleone: «Não te aborreças e nunca faças ameaças. Argumenta com as pessoas»
Pacientemente, tentava mostrar o outro lado das coisas para fazer o interlocutor mudar de opinião e chegar a um acordo que servisse os seus interesses, claro está. Não havia impossíveis, se as coisas não ficavam resolvidas a bem, acabariam resolvidas a mal, sem olhar a meios para atingir esse fim.
E foi assim que Don Corleone construiu um império.
Tudo se resumia a uma factura que tinha de ser paga. E tudo era um assunto pessoal, fosse qual fosse o serviço.
E não era diferente para Michael Corleone que encarou a tentativa de assassinato do pai como um assunto pessoal. Vinga o pai e torna-se membro activo desta grande Família, mas é obrigado a fugir em seguida para evitar represálias, não evitando contudo a guerra das Famílias de Nova Iorque.
Sonny Corleone toma a rédea das operações enquanto Don Corleone não se restabelece. Mas Sonny não tem a diplomacia do pai e encarar cada situação com pulso de ferro o que só agrava o estado das coisas. Limita-se a reagir impulsivamente. A guerra torna-se sangrenta e todos o temem. Consegue o respeito de todos não há dúvida quanto a isso, mas é um respeito pelo medo e não pela grandeza, esta que valeu ao pai o título de Don. A grandeza de carácter e de princípios. Construiu um império sendo um homem de visão e de talento, podendo ser considerado um verdadeiro génio no que tocava a negócios. E quem não partilhava da sua visão, como a concorrência, era simplesmente convidado a mudar de ideias que é como quem diz convencido das vantagens de o fazer.
Todos aqueles a quem ajudava tinham um propósito para o futuro da organização de Don Corleone – o de consolidar o seu poder. E aqui se vê a diferença em relação a Sonny, exímio soldado de guerra, mas pouco dado a estratégias, necessárias neste cenário.
O mundo passara a ser um lugar seguro para todos aqueles que lhe juram lealdade. E poder um dia retribuir o favor prestado por Don Carleone era motivo de grande orgulho.

Com a morte de Sonny, os acontecimentos mudam de rumo e Don Carleone, entretanto restabelecido, retoma os negócios da Família.
Procura imediatamente cada uma das Famílias na disposição de fazer a paz, pondo de lado o infortúnio da morte do filho. Cada um apresenta as suas exigências e chegam a um acordo que deixa satisfeitas todas as partes.
Contudo, Phillip Tattaglia precisava de uma garantia pessoal da parte de Don Corleone de que não iria vingar a morte do filho ao fim de algum tempo, esquecendo este acordo. Assim, Don Corleone garante perante todos que, enquanto estiver à frente das acções da sua Família, nada irá fazer para vingar a morte do seu filho, sacrificando assim os seus interesses na defesa do bem comum.
Mas...a vingança é um prato que se serve frio ...

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Desafio

Um blogue.
Um livro.
Dois leitores mais ou menos compulsivos.
Duas leituras paralelas.
Resultado?
Em breve... palavras impressas aqui.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O velho que lia romances de amor

É um livro cujo título é muito mais poético que o seu conteúdo.
Prenda de aniversário (ou seria de Natal...?), num 10 de Dezembro de 2000, de uma pessoa muito especial, na altura devorei-o em apenas dois dias! Ainda hoje, volvidos tantos anos, não contenho o sorriso de cada vez que leio a ternurenta dedicatória…

Indo à história…
A história começa com um dentista carniceiro… que pouco contribui para a ecologia do romance. Apenas, em breves linhas, será um fornecedor de romances de amor para o velho.
“António José Bolívar ficou com todo o tempo para si mesmo, e descobriu qee sabia ler ao mesmo tempo que lhe apodreciam os dentes.”
Aos poucos, vai entrando António José Bolívar Proaño, o tal velho… É a sua história, em leves penadas, que liga as poucas páginas deste livro de Luís Sepúlveda.
Ainda jovem, emigra com a sua mulher, que pouco depois morre. Sozinho, o velho vai viver com os índios xuar. Volvidos uns anos, volta à sua aldeia, El Idilio.
Ele, o velho, é como que um elemento pacificador.
Ele senta-se com a chuva lá fora e vai folheando romances.
O velho lê como quem faz um puzzle, junta letras e palavras até lhes compreender o sentido.
“António José Bolívar Proaño dormia pouco, Quando muito, cinco horas de noite e duas à sesta. Bastava-lhe isso. O resto do tempo, dedicava-o aos romances, a divagar acerca dos mistérios do amor e a imaginar os lugares onde aconteciam as histórias.”
Um dos elementos centrais deste romance é uma luta com uma animal desconhecido. Quase como “O velho e o mar”. Uma luta entre um animal ferido no seu sentimento, uma onça fêmea a quem um gringo matou o macho. A onça empreende uma vingança contra os habitantes de El Idilio. Uma luta desigual perante a dor.
Só o velho, por ter vivido cm os índios xuar, conhece os segredos da floresta e dos seus animais, compreendo-os e sabendo jogar com eles.

O romance que o velho andava a ler começava assim:
“Paul beijou-a ardorosamente eanquento o gondoleiro, cúmplice das aventuras do amigo, fingia olhar noutra direcção e a gôndola, equipada com macios coxins, deslizava tranquilamente pelos canais venezianos.”

E ele, o velho, perguntava-se o que era uma gôndola; porque a cidade tinha água e não estradas; o que era “beijar ardorosamente”, pois nunca o tinha feito com a sua mulher; e julgava o cúmplice das aventuras…

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

O Poder da Inteligência Criativa

Com o verão veio a leitura de alguns livros de “crescimento interior”, digamos assim.
Com “O Poder da Inteligência Criativa” (de Tony Buzan) aprendemos a utilizar todo o potencial da nossa mente.
Como forma de enquadramento, o autor leva-nos numa viagem pelo desenvolvimento do conhecimento sobre o cérebro nas última décadas.
Normalmente dividimos o cérebro em hemisfério esquerdo e hemisfério direito, associando determinado tipo de capacidades a cada um dele. Enquanto ao hemisfério esquerdo associamos a lógica (palavras, lógica, números, ordem, linearidade, análises, registos), ao hemisfério direito associamos emoções (ritmo, localização espacial, dimensão, imaginação, fantasias, cor, sensibilidade ao sagrado).
Mas…. Os cientistas descobriram que esta divisão não é estanque. Os dois hemisférios comunicam, e o desenvolvimento de um hemisfério para o qual temos “menos jeito” acaba por influenciar o outro e ambos passarem a um outro patamar de interacção e desenvolvimento. Ou seja, não se podem compartimentar pessoas “intelectuais” de um lado e “emocionais” do outro. “Os lados esquerdo e direito do cérebro tinham entrado em “diálogo” um com o outro."
Ao longo de todo o livro, o autor vai deixando exemplos e exercício práticos.
As capacidades do cérebro devem ser utilizadas permanentemente!
Sair da rotina, usar uma mão que normalmente não usamos, desenhar, desenvolver ideias a partir de uma palavra (por exemplo, associar cinco palavras a uma inicial; depois associar mais cinco a cada uma destas…), fazer anotações coloridas…

Um dos conceitos fundamentais neste livro: Mapas Mentais. Basicamente, é aquela associação de palavras e ideias que referi acima. Graficamente, acaba por ser aquilo que todos nós fazemos quando estamos ao telefone com uma folha à frente… no final da conversa, a folha branca está toda riscada.

Voltando um pouco atrás, Tony Buzan defende que todos – sim, todos! – somos artistas: desenhamos bem, cantamos bem, escrevemos poesia bem, produzimos muitas ideias. Apenas fomos sendo inibidos no nosso processo de educação com as respostas negativas, os “não tens jeito para isso”…
O segredo dos criativos famosos (Einstein, Edison, Shakespeare, Da Vinci…) era a sua atitude perante o fracasso.
Por exemplo, Thomas Edison, no processo de desenvolvimento da lâmpada incandescente, criou milhares de objectos estranhos. “Edison realizou nove mil experiências até chegar à lâmpada incandescente, e mais de cinquenta mil até inventar os acumuladores.” A maior parte dos modelos que desenvolveu eram rejeitados por si mesmo, mas eram encarados como “um louvor à sua dedicação à experiência, ao risco e à tentativa persistente até ter encontrado o que procurava.”
“Por exemplo, quando um dos seus assistentes lhe perguntou por que é que, apesar de já ter fracassado milhares de vezes, continuava a insistir em tentar descobrir um filamento que durasse mais tempo na sua lâmpada incandescente, Edison respondeu-lhe calmamente que ainda não tinha fracassado uma única vez! O que ele tinha feito fora descobrir milhares de coisas que não funcionavam, no inevitável caminho para a descoberta daquela que funcionava.”

O capítulo dedicado à flexibilidade criativa e originalidade pareceu-me bastante interessante. O cérebro é como o corpo: se o movimentarmos, a flexibilidade aumenta e podemos fazer mais coisas. Para isso é necessário:
- ver as coisas sob perspectivas diferentes;
- estabelecer associações criativas;
- inverter as situações
“Se assim o fizer, é óbvio que se tornará numa pessoa diferente, com mais carácter próprio, mais fora do normal, mais original e única. Tornar-seá uma pessoa a quem os outros se referirão como especial, criativa e, até mesmo, como um génio!”

Associar ideias, não impor barreiras aos pensamentos, ter a liberdade das crianças a brincar…
Foi assim que Einstein chegou às suas teorias sobre o universo: ainda estudante, “imaginou estar na superfície do Sol, e daí partir num raio solar, à velocidade da luz e em linha recta, até chegar ao fim do universo.
Qual não foi o seu espanto quando, ao chegar ao “fim” da sua viagem, reparou que estava praticamente no sítio de onde tinha partido”. Parecia impossível. Mas foi assim que concluiu que “se ao viajarmos em linha recta “para sempre” voltarmos continuamente à área de onde partimos, então “para sempre” tem que significar pelo menos duas coisas: o universo será de algum modo curvo e possuirá um limite.”

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Marginália e as suas leituras de Verão

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Fui de férias com:

e assisti ao drama de uma mãe que vê o filho partir, ao drama de quem vê subitamente o seu mundo acabar.
O livro relata-nos uma bonita história de amor entre dois amigos, uma leitura comovente e ao mesmo tempo envolvente. Coloca-nos em cena e imediatamente sentimos que a história nos pergunta: "arriscaria tudo por amor?"
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Partilho aqui um trecho que li com duplo deleite:
«Quero que saibas que estou bem.
Sim, tu.
Agora que ouviste a minha história, podes pensar que ainda estou naquele lugar cheio de dor e tristeza, mas não estou, a sério. Por favor, não te preocupes comigo. (...)
Vivemos numa vila perto de Braga, em Portugal, e dou aulas privadas de Inglês, de preparação para os exames. Sei que algumas pessoas na vila me descrevem como a inglesa preta de sorriso grande e olhos tristes.
Por isso, como vês, posso sorrir novamente.»
(a descrição é bem ao estilo português!)
Estou agora em posição de dizer: não há nenhum como o primeiro e, de entre os três, o que mais me fascinou foi "a filha da minha melhor amiga".
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Há depois livros que temos o prazer de ler porque o acaso assim quis. Foi o que aconteceu com "O Segredo da Bastarda".

O tempo tardava em passar e enquanto não chegava a hora de apanhar o comboio rumo ao interior quente e a umas merecidas férias, passei numa tenda que por acaso tinha livros e que, por acaso também, tive vontade de trazer todos. Nunca um espaço tão reduzido concentrou tantos títulos interessantes e a verdadeiro preço de Feira.
Sobre o livro:
"Cristina Norton brinda-nos com um romance histórico notável, onde o rigor convive com um humor e uma legibilidade capazes de prender o leitor até à última página." Concordo. A forma como nos dá a conhecer um pouco da nossa história é de mestre, sem maçar consegue cativar-nos da primeira à última página e verdade seja dita, as aparições da madrinha de baptismo de Eugénia são verdadeiramente hilariantes.
Sobre a história:
Eugénia Maria viaja com a filha Isabel, vítima de tuberculose para a ilha da Madeira em busca de alguma esperança para a condição da filha que a cada dia parece mais fraca e sem sinais de melhoras. Para a animar, a mãe resolve contar-lhe o segredo da sua paternidade.
Toma-nos pela mão e conduz-nos através da corte de D. João VI, que sua mãe - Eugénia de Menezes, conhecia bem na qualidade de aia da princesa Carlota Joaquina.
Assistimos às suas paixões e à sua obediência cega a Deus e à coroa. E como em prol desta é obrigada a abandonar o Paço e a viver em conventos, escondendo a sua desgraça.
O sofrimento da mãe chega finalmente ao fim através da redenção divina que vem apaziguar um coração dilacerado pela tristeza e pela perda do amor paternal que tanta falta lhe fazia.
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Há livros que vêm parar às nossas mãos porque ELES decidiram que já era tempo.
A sua leitura surpreende-nos por não estarmos à espera da riqueza de palavras, o que os torna ainda mais especiais...
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Voltei com "O Padrinho" de Mário Puzo, mais um feliz achado. Mais impressões? Talvez nos próximos dias.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Livros à medida

"A partir de Setembro, a Sítio dos Livros publicará qualquer obra escrita em língua portuguesa. À medida dos autores ou dos leitores. O único critério editorial é que tenha o mínimo de correcção ortográfica." (Diário de Notícias)

"Caim" - o novo livro de Saramago

Em Outubro chegará às bancas o novo romance de José Saramago: "Caim"
Este livro tem como personagens principais aquela figura bíblica, Deus e a Humanidade "nas suas diferentes expressões" (Público).

Não li ainda o romance que lançou o ano passado - "A Viagem do Elefante" - mas já estou curioso pela novidade que aí vem.
Na notícia falam de "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", livro que muita polémica levantou e páginas encheu. Um livro fantástico! Se estiver ao mesmo nível, será um grande livro.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Paulo Coelho disponibiliza inéditos grátis

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Pessoalmente, não sou fã do livro digital, mas para quem estiver interessado, os títulos disponíveis são O Caminho do Arco, Histórias para Pais, Filhos e Netos (contos) e Guerreiro da Luz (colectânea de textos publicados pelo autor na Internet).

Os livros estão disponíveis aqui.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Leituras de verão

Durante as férias conclui a leitura de O Sonho de Inocêncio.
Pouco mais a acrescentar ao que já disse anteriormente.
É um grande romance histórico, que nos transporta para os meandros da grande política europeia tendo como eixo central o papado de Inocêncio III, e para cristalização de uma certa imagem da Igreja.
Os jogos de poder são uma constante num homem que chegou ao topo da Igreja Católica tendo como objectivo unificar a cristandade.
É o tempo das cruzadas, da definição de regras na Igreja que ainda hoje perduram (as confissões, a indissolubilidade do casamento, a campainha a meio da missa, a divisão da Bíblia em capítulos e versículos, a criação da imagem vigente de Jesus Cristo - "se a cristandade não tiver uma única imagem do Nosso Salvador, nunca vai ficar unida" - a utilização da mensagem de Santo Agostinho...), de confrontos por territórios na Europa, de traições reais...

Gostei muito deste romance!
Recomendo entusiasticamente a sua leitura.


Depois de um pouco de História, foi hora de me virar para dentro e ler "O Poder Infinito da sua Mente 2", prenda de uma amiga no meu aniversário.
Em poucas palavras, posso dizer que é um livro de "programação mental", para desbloquear as nossas potencialidades. Pondo de lado limitações que inconscientemente (ou não) fomos absorvendo e que nos condicionam diariamente.

Numa frase, a mensagem deste livro será:
"Tudo o que cria na mente, é a sua verdade, existe para si. Qualquer verdade mental é verdade existencial para a própria pessoa."
Um pouco na senda de "O Segredo", "Tudo aquilo que o subconsciente aceita como verdadeiro, cumpre". Ou seja, acabamos por atrair para nós tudo aquilo que domina na nossa mente. A qualquer nível: pessoal, relacional, familiar, profissional... É a lei da atracção.
Mas para além desta lei, há outra também implacável: a Lei do Retorno. Basicamente: tudo o que dizemos (ou pensamos), seja por maldade, por crítica mordaz, regressa e cai sobre nós.

Para além destas mensagens, outra fundamental: acreditar em si mesmo, porque cada ser é único e irrepetível, tem a sua própria Luz. A partir desta constatação - portanto, cheio de si - cada pessoa fica segura de si para percorrer o seu caminho. Cada um fica com uma espécie de protecção divina, na medida em que está completamente alinhada interiormente.
"A trilogia da mente é o conhecimento, a determinação e a persistência; e a trilogia do coração é o amor, o entusiasmo e a fé. A junção de ambas conduz ao sucesso."

O autor de "O Poder Infinito da sua Mente 2" é Paulo Trevisan, considerado o autor brasileiro mais importante no domínio da auto-ajuda. Este autor dedica-se, "desde 1975, ao estudo das potencialidades do ser humano, e defende sobretudo que é na análise do poder da mente que se pode encontrar o segredo da felicidade humana"

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Cascais com-vida

Cascais é um ponto central da cultura por estes dias:
- 23ª Feira do Livro, no Jardim Visconde da Luz;
- Cool Jazz Fest, com Seal já na próxima sexta-feira.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Dorothy Koomson (parte II)

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Há livros assim...livros que deixam um sabor estranho na boca...aquele sabor que muitos conhecem tão bem! O característico "sabe a pouco"...mas ao contrário.
Passo a explicar: não é o que o livro tenha ficado aquém das expectativas, não, simplesmente quero mais e não consigo parar de consumir. Inexplicavelmente, passei a devorar todos os livros de Dorothy Koomson.
O fenómeno não é novo, mas não com esta dimensão.
Começou com Robert James Waller e As Pontes de Madison County. Comprei em seguida Valsa Lenta em Cedar Bend com o intuito de repetir as sensações experimentadas anteriormente mas... sem sucesso. Há livros assim. Não que sejam excepcionais. Simplesmente têm algo que os torna especiais, que nos marcam para sempre. Ainda não encontrei outra história de amor tão encantadora quanto a vivida por Robert L. Kincaid e Francesca Johnson em As Pontes de Madison County, o que faz deste livro único.

Isto tudo para dizer que não consegui resistir e acabei de adquirir o último livro de Dorothy Koomson - Bons sonhos, meu amor.
E esta palavra – último – confesso que me provoca calafrios. Significa que quando chegar à página 445 deste livro, segue-se uma página em branco e a seguir a esta não há mais nada, literalmente. E por instantes quase desejo que Dorothy Koomson se convertesse numa Margarida Rebelo Pinto, porque à velocidade com que esta edita um livro não teria de estar muito tempo à espera para voltar a 'consumir'...

domingo, 26 de julho de 2009

Ler para crescer

"O Plano Nacional de Leitura decidiu encorajar os avós a lerem histórias aos netos. O certo é que avós, netos e histórias são hoje muito diferentes: a maioria dos avós ainda está numa fase activa da vida, as crianças têm o tempo preenchido por actividades várias, as solicitações são muitas e o tempo familiar mais escasso. Os livros infantis sofrem a inevitável concorrência dos desenhos animados, que passam em sessão contínua em diversos canais televisivos: alguns são medonhos e sobressaltados por sons guturais sem propósito ou sentido aparente, revelando um mundo de vencedores e vencidos, de força e astúcia despidas de qualquer virtude ou razão; outros mais não são do que formas indefinidas, num movimento lento com efeitos hipnóticos, e destinam-se certamente a adormecer bebés."

Ler texto integral de Maria José Nogueira Pinto, no DN, aqui.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

sobre o livro digital

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Na sessão de lançamento do livro com os posts do seu blogue, "O Caderno", o Nobel da Literatura português, José Saramago disse esperar que "o livro feito de papel, com palavras impressas, tenha ainda uma longa vida".

O Clã do Urso das Cavernas

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Quando ouvi falar neste livro pela primeira vez não tinha mais de 14-15 anos. Lembro-me que estavam todos fascinados com a colecção, menos eu. Não me interessava por este tipo de romance, a minha atenção estava voltada para alguns dos grandes clássicos portugueses.

O Clã do Urso das Cavernas, publicado em 1980, é o primeiro livro da colecção Os Filhos da Terra e o ponto de partida para uma viagem épica onde Auel nos leva a conhecer a vida dos nossos antepassados na última fase da Era Glaciar, quando os homens de Neandertal e de Cro-Magnon dividiam a Terra.
A história começa com uma catástrofe natural que deixa à sua sorte Ayla, a heroína do romance. A menina de cinco anos é inesperadamente encontrada pelo Clã, que fica apreensivo por esta ser dos Outros. Iza, a curandeira do Clã apieda-se da menina e não consegue seguir em frente sem cuidar dela. Naquele instante e inconscientemente, Iza adopta Ayla como sua filha, a filha que sempre quis ter. Autorizada a ficar com ela, tudo faz para que esta recupere rapidamente das suas mazelas. Os cabelos loiros, os olhos azuis inspiram surpresa a todos os membros do Clã por ser tão diferente deles e feia, mas acaba por ser aceite.
Creb, o Homem Santo também não lhe fica indiferente e junto com Iza procuram ensinar-lhe a linguagem, os costumes e tradições do Clã, o que não se revela tarefa fácil. Apesar dos progressos notáveis, Ayla não consegue anular a sua natureza, a sua essência, e vai sentir na pele o quanto é diferente, às mãos de Broud que sente por ela um ódio de tal forma profundo que o consome até ao espírito.
A curiosidade de Ayla por tudo o que a rodeia leva-a a interessar-se pela caça e pelo manejo das armas, algo que estava proibido às mulheres mas que ela passa a dominar com notável mestria, não sem contudo ser castigada por desobedecer aos costumes profundamente enraizados, que conferem sentido e permitem a sobrevivência do Clã.
Ayla torna-se mulher, forte e determinada em ser mãe. Ainda que bela e sensível, quem iria querer acasalar com alguém tão feio? Assim, Iza resolve ensinar-lhe tudo o que sabe sobre a magia curativa de forma a conferir-lhe um estatuto no seio do Clã.
Contudo, contra todas as convicções o milagre da vida acontece e, desafiando tudo e todos, é permitido a Ayla ficar com Durc – o seu bebé. O totem de Ayla é forte e tem-lhe dado sorte mas o curso dos acontecimentos não pode ser interrompido. O inevitável acontece. Alguém enfurece os espíritos e teme-se o pior. Ayla sofre mais uma vez o estigma de ser diferente e, de novo, é abandonada à sua sorte.
Fica a vontade de descobrir o que acontece a Ayla, as novas aventuras que ela vai viver e, para isso basta ler as sequelas: O Vale dos Cavalos, Os Caçadores de Mamutes (vol I e II), Planícies de Passagem (vol. I e II) e O Abrigo de Pedra.
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O livro foi adaptado a filme com Daryl Hannah no papel de Ayla e chegou a ser nomeado em 1987 para Óscar de melhor Caracterização. Um à parte, nesse ano, Paul Newman ganhou o Óscar de melhor actor com o filme "A Cor do Dinheiro".
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Entre 24 e 26 de Junho, Jean Auel esteve em Portugal para conhecer alguns dos sítios paleolíticos mais importantes do território nacional. A informação recolhida vai ser usada na produção do próximo romance da colecção Os Filhos da Terra, que relata o momento em que o Clã do Urso das Cavernas, personagens centrais da colecção, atravessam a Europa e chegam à costa Atlântica, actual território português.

terça-feira, 21 de julho de 2009

O Sonho de Inocêncio

Há livros que nos agarram de formas difíceis de explicar.
É o que me esta a acontecer com "O Sonho de Inocêncio", romance histórico sobre a ascensão e queda do Papa mais poderoso da História.
Vou sensivelmente a meio, e infelizmente estou a lê-lo mais lentamente do que desejaria e do que a história exige, mas é uma história grandiosa.
Um homem, de famílias privilegiadas, que sempre esteve ligado à Igreja. Com menos de 40 anos ascende ao topo da hierarquia eclesial, e, fruto do entendimento que faz do que deve ser o papel do Papa - unificar toda a cristandade - centraliza tudo, decide tudo, é um activista político na defesa dos interesses da Igreja.
Embora vivendo à volta de 1200, Inocêncio III é um maquiavélico avant la letre. Sabe e joga com prazer o jogo da política, da guerra, dos interesses terrenos.
Duvida ele mesmo da existência de Deus, mas não duvida dos seus poderes enquanto chefe de um Estado. Manipula, mente, combate para atingir os seus objectivos, e alargar o seu poder. Contra quase tudo o que disse antes de ser Papa - em que valorizava a livre discussão de textos variados, em que era um livre pensador - ao chegar ao trono da Igreja é profundamente centralizador.
Entende que não é um simples sucessor de Pedro, mas sim o representante directo de Deus na Terra.

Estou a saborear cada página deste extraordinário romance.
Há alguns elementos históricos do seu papel que explicam pormenores que hoje damos como adquiridos na Igreja e na sua doutrina. De acordo com este romance, foi Inocêncio III que os introduziu. Mas falarei disso numa avaliação final.
Espero terminar a sua leitura antes das férias... de qualquer forma, entusiasticamente, deixo esta sugestão para leitura de verão!

quarta-feira, 15 de julho de 2009

"Certos livros têm que ser lentamente apreciados, outros querem ser devorados, e só uns poucos são mastigados e completamente digeridos."
(retirado do blog Viciadas pela Leitura)

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Dorothy Koomson

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Hoje vou fazer uma coisa diferente, não vou falar da história dos livros mas apresentar a autora dos mesmos. Das obras editadas por esta romancista, tive o prazer de ler:
"A filha da Minha Melhor Amiga" (cuja leitura deixou um bichinho difícil de calar) e "Pedaços de Ternura" que acabei de ler há dias.
Mas e sem mais demoras apresento Dorothy Koomson:

«Olá! O meu nome é Dorothy Koomson e vou tentar tornar este texto sobre mim o mais interessante possível. Escrevi o meu primeiro romance aos 13 anos, que se chamava There's A Thin Line Between Love And Hate. Costumava escrever um capítulo todas as noites, que depois circulava entre as minhas colegas de escola, todas as manhãs. E elas adoravam! Cresci em Londres e depois voltei a crescer em Leeds, quando ingressei na faculdade. Mais tarde acabei por regressar a Londres, para fazer o mestrado, e fiquei por lá durante alguns anos. Passei por alguns empregos temporários, até conseguir a minha grande oportunidade no mundo da escrita, escrevendo, editando e substituindo colegas em várias redacções de publicações femininas e de jornais nacionais. Contar histórias e escrever ficção são uma ENORME paixão na minha vida, pelo que fui aproveitando cada segundo do meu tempo para escrever contos e romances. Em 2001 tive a ideia que inspirou o "The Cupid Effect", e assim começou a minha carreira de romancista. E tem sido espectacular! Em 2006, foi publicado o meu terceiro romance, "A Filha da Minha Melhor Amiga" – que teve um sucesso imenso, vendendo quase 90 mil exemplares no Reino Unido, só nas primeiras semanas. Seis semanas depois, o livro foi seleccionado para o Richard & Judy Summer Reads Book Club e as vendas do livro aumentaram para mais de meio milhão de exemplares. E pronto, lá estou eu a fazer asneira outra vez. Isto devia ser sobre mim e não sobre os meus romances… OK, voltemos à minha pessoa/a mim! Vivi dois anos em Sidney, na Austrália, e agora estou de volta a Inglaterra. Mas não sei dizer por quanto tempo ficarei no Reino Unido, porque me parece que fui mordida pelo bichinho das viagens…» (in Wook)
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Se tiverem oportunidade de ler os seus livros poderão verificar um pouco do seu percurso de vida através dos lugares que cita, do emprego que a protagonista tem e das particularidades da sua fisionomia.
Não vou revelar detalhes, porque simplesmente não consigo encontrar palavras que possam definir a profundidade e sensibilidade com que Dorothy Koomson conta a história de Kamryn Matika e Adele Brannon ("A filha da Minha Melhor Amiga") e ainda de Kendra Tamale ("Pedaços de Ternura"). É quase penoso parar de ler, mas e porque temos de o fazer, o nosso pensamento fica inebriado, suspenso entre cada página, até que possamos retomar a leitura.
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Hoje alguém é pequenino

Possivelmente vais querer passar a esquecer este dia ... mas há quem não deixe! Vamos festejar, não a idade, mas o momento, a amizade, o sentimento de que o tempo passa sim e por isso há que aproveitar cada instante.

Assim, aproveita o bolinho de chocolate, a cobertura de chocolate e o recheio de chocolate e não esqueças o desejo quando apagares as velas. Não podemos perder a oportunidade de pedir que os nossos sonhos se tornem realidade.
PARABÉNSSSSSSS!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Laureano Barros: O homem e a sua biblioteca

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Deixo-vos este pequeno excerto da história de uma vida muito singular, pela mão de Paulo Moura para o PÚBLICO:
«Foi quando foi viver para o Porto, para frequentar o liceu, que o jovem Laureano Barros começou a comprar livros. Frequentava os alfarrabistas e iniciou uma colecção, tal como fazia com os paliteiros, bengalas, relógios, louças, antiguidades ou alfaias agrícolas. Mas ao contrário de toda a traquitana que sempre gostou de trazer para casa, aos livros ergueu uma fidelidade. Não os vendia, não desistia nem se esquecia deles. Começou a acumulá-los na moradia que o pai lhe comprou para se instalar na cidade, na Foz, continuou a ampliar a colecção enquanto viveu nessa casa com a primeira mulher, Leonor, e depois quando se divorciou dela e das seguintes. De cada vez que se separava da mulher com quem vivia (e foram mais mulheres do que os três casamentos), deixava-lhe tudo: a casa, os móveis, as antiguidades. Mas levava consigo a biblioteca. Eram livros de Matemática, de Filosofia, de Botânica, mas acima de tudo de Literatura Portuguesa, e, cada vez mais, volumes curiosos e raros, obras pouco conhecidas, primeiras edições. Por alguns autores tornou-se obcecado e comprava tudo. Depois estendeu a obsessão a todos os escritores. Comprava e lia, várias vezes, os livros de Camilo, Eça, Pessoa, Torga. Sempre teve insónias, e passava-as a ler. Dono de uma memória prodigiosa, sabia páginas e páginas de cor. Perdia horas a arrumar os livros, a manuseá-los, a acariciá-los.
Para ele, eram um salvo-conduto contra a efemeridade de tudo o resto. E também contra a desilusão, como se nada, além dos livros, estivesse à altura dos padrões de excelência que estabeleceu. Do grau de pureza que cedo definiu para a sua vida.
(...) mas à medida que se aproximava do fim, e ia perdendo o interesse por tudo excepto pelos livros, apercebia-se também de que os filhos não queriam a biblioteca. Pensou em várias soluções - doar as obras a uma instituição, criar uma fundação (ideia do filho Carlos). Mas nenhuma lhe agradou. Por fim, deixou de pensar no assunto. Mergulhou numa estranha apatia, uma inconsciência meticulosa e desesperada, que apenas aos seus "meninos" era visível. E os fazia sofrer.

Como pôde aquele homem que tudo calculava e tudo prevenia ter cometido um erro tão grosseiro? No seu afã de tudo medir pela beleza dos livros, de sublimar neles os seus dias e o seu futuro, nunca lhe passou pela cabeça que a biblioteca pudesse não ser eterna.
Mas não deixou, mesmo sabendo (e decerto aceitando) que em breve tudo aquilo seria vendido em leilão, de folhear, tratar e acariciar os seus livros, com a leveza confiante com que uma criança diz adeus a quem ama.»

domingo, 28 de junho de 2009

sexta-feira, 26 de junho de 2009

A magia das palavras

Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa:

"Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador.

Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Ela era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, silábica, um pouco átona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.

O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice.

De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro.

Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo.
Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento.
Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela.

Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo.

Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo.

Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois.

Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula.

Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou levar por essas palavras, pois estava totalmente oxítona às vontades dele e foram para o comum de dois géneros.

Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais.

Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular.

Ela era um perfeito agente da passiva; ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular.

Nisto a porta abriu-se repentinamente.

Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente, cheios de preposições, locuções e exclamativas.

Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se; e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.

Que loucura, meu Deus!

Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois.

Só que, as condições eram estas:

Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.
O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva."

Fernanda Braga da Cruz

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Os Maias

E eis que, ao fim de não sei quanto tempo, conclui a releitura de Os Maias. No meu já velhinho livro, comprado em Junho de 1992, de páginas amarelecidas. Acho até que foi o primeiro livro que comprei… custou 463,00 escudos...

Não vou pormenorizar muito a história deste livro grande da literatura portuguesa, no entanto, deixo algumas impressões.

Sob a apurada luneta de Eça de Queirós, traça-se uma deliciosa e cruel sátira social da Lisboa do final do séc. XIX, à sua burguesia, à sua vivência.

No início, ainda jovens, Carlos da Maia e João da Ega são o símbolo do futuro, do desejo de fazer, de mudar. Pululam de ideias fantásticas, de ideais nobres, aspiram a grandes feitos.

Como passar do tempo, tudo se vai esboroando. Carlos não consegue impor-se como médico no seu luxuoso consultório; Ega, um diletante, não vinga com os seus ideais elevados, e volta a Celorico. Depois regressará à capital.

No início, quando Carlos opta por ser médico, temos este diálogo:

“- Ora essa! – exclamou Afonso. – E porque não há-de ser médico a sério? Se escolhe uma profissão, é para exercer com sinceridade e com ambição, como os outros. Eu não o educo para vadio, muito menos para amador; educo-o para ser útil ao seu país…

- Todavia – arriscou o Dr. Juiz de Direito com um sorriso fino –, não lhe parece a Vossa Excelência que há outras coisas, importantes também, e mais próprias talvez, em que seu neto se poderia tornar útil?...

- Não vejo – replicou Afonso da Maia. – Num país em que a ocupação geral é estar doente, o maior serviço patriótico é incontestavelmente saber curar.”

Ao longo do romance, sucedem-se encontros e desencontros sociais. Todos feitos de fogos-fátuos, altamente moralistas, com ideias para mudar Portugal. Mas nada fazem.. Gastam o tempo em convívios, jantares, noitadas, soirées, charutadas, patuscadas, hotéis… Ninguém concretiza nada. É tudo platónico, longínquo, perfeito, idealista. E o país continua uma choldra.

Mas vão sendo escalpelizados os problemas que já então afectavam o país. Numa dessas soirées…

“Os empréstimos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta – “cobrar imposto” e “fazer o empréstimo”. E assim se haveria de continuar…”

(…)

“Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! À bancarrota seguia-se uma revolução, evidentemente. Um país que vive da “inscrição”, em não lha pagando, agarra o cacete; e procedendo por princípio, ou procedendo apenas por vingança – o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o “calote”, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal, livre da velha dívida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas…”

Todos têm grandes frases, verve, retórica, “veia”. Em linguagem actual, seria tão-só show off.

São todos cultos, com grandes referências literárias e artísticas. Querem repetir, celebrar essas grandezas, mas não passam da retórica, da frase sonante. AA certa altura, já quase no fim do romance, Carlos sonha converter um quarto do Ramalhete num fumoir, onde surgiria um cenáculo de diletantismo e de arte… “e passa-se a noite numa medonha orgia de ideal!...”

É a grandiloquência permanente.

Em cada página reconhecemos o Portugal actual: os mesmos discursos sonantes, os mesmos moralismos vazios, as mesmas "públicas virtudes/vícios privados", os grandes ideais... mas o país sendo "a choldra".


No fim, o último capítulo, é o retrato perfeito do país sem futuro, sem ideias, molengo, caricatural de tudo o que vem do estrangeiro.

A passagem de Carlos e Ega pelo Ramalhete, volvidos 10 anos sobre os trágicos acontecimentos que dão desenlace à história, são a imagem da desolação, da desilusão, do abandono, do fim. O próprio Ega o diz:

“- falhámos na vida, menino!”

Este é o pano de fundo social, político, cultural em que decorre a história da família Maia.

Carlos da Maia é filho de Pedro da Maia e de Maria Monforte. Pedro, por sua vez, é filho de Afonso da Maia.

Quando Maria Monforte foge com o italiano Tancredo, leva consigo a pequena Maria Eduarda, deixando o filho Carlos da Maia. Pedro da Maia, desolado, suicida-se.

O velho Afonso da Maia fica a cuidar do seu neto, ocultando-lhe todo o seu passado, a história da sua mãe. E, convencido da morte da sua neta, garante a Carlos que a irmã morreu.

Passados muitos anos, já homem feito e de paixões fáceis, o destino põe no caminho de Carlos uma bela senhora vinda do estrangeiro, mãe de uma menina. A paixão sobrevém… mas há um segredo que ambos desconhecem e os vai marcar tragicamente.

o Mundo de Sofia

Faz cinco anos que Sophia de Mello Breyner nos deixou.
O PÚBLICO resolveu fazer uma pequena homenagem ao revelar-nos algumas intimidades do seu espólio. É comovedor!

terça-feira, 16 de junho de 2009

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Revolutionary Road

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Assim que ficamos a saber que determinado livro vai ser adaptado a filme, apressamo-nos a ler o mesmo com o intuito de podermos depois compará-lo à produção cinematográfica. E, regra geral, ficamos decepcionados.
Ou porque o filme não destaca este ou aquele detalhe que nos pareceu importante no livro ou porque deturpa de tal forma a história que ficamos na dúvida se estamos de facto a falar de uma adaptação na verdadeira acepção da palavra.
Ficamos à espera que aquela cena desperte em nós a mesma imagem que construímos fruto da nossa imaginação alimentada pelas descrições do autor. Mas quando isso não acontece, ficamos simplesmente com uma sensação de vazio, com uma sensação de que fomos enganados.
Não é o caso de Revolutionary Road. O filme segue à letra o livro de Richard Yates. Associamos sem dificuldade cada um dos capítulos a cada um dos episódios que nos foram apresentados na tela. O livro permite-nos descodificar os sentimentos envolvidos nas cenas mais emocionantes, relegando para segundo plano o [bom ou mau] desempenho dos actores, uma vez que não restam dúvidas quanto aquilo que queriam transmitir.
Por outro lado e porque nos é apresentado no livro o background de cada uma das personagens, ficamos definitivamente esclarecidos em relação ao que são, ao que sentem, à forma como reagem e a tudo aquilo que as move e moveu para chegarem aquele preciso instante das suas vidas.
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Sam Mendes conseguiu e com mestria compor um cenário em que reconhecemos a essência do livro – a história de um casal em que um e outro anda perdido no limbo do que é e do que gostaria de ter sido. E quando finalmente percebem que não é possivel continuar a viver na ilusão que criaram, o sonho transforma-se num pesadelo.
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Sobre o livro:
«O primeiro romance de Richard Yates [Revolutionary Road] tornou-se um clássico logo após a sua publicação em 1961. Nele, Yates oferece um retrato definitivo das promessas por cumprir e do desabar do sonho americano. Continua hoje a ser o retrato da sociedade americana.
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Um casal jovem e promissor, Frank [Leonardo DiCaprio] e April Wheeler [Kate Winslet], vive com os dois filhos num subúrbio próspero de Connecticut, em meados dos anos 50. Porém, a aparência de bem-estar esconde uma frustração terrível resultante da incapacidade de se sentirem felizes e realizados tanto no seu relacionamento como nas respectivas carreiras. Frank está preso num emprego de escritório bem pago mas entediante e April é uma dona de casa frustrada por não ter conseguido seguir uma promissora carreira de actriz. Determinados a identificarem-se como superiores à crescente população suburbana que os rodeia, decidem ir para a França, onde estariam mais aptos a desenvolver as suas capacidades artísticas, livres das exigências consumistas da vida numa América capitalista. Contudo, o seu relacionamento deteriora-se num ciclo interminável de discussões, ciúmes e recriminações, o que irá colocar em risco a viagem e os sonhos de auto-realização.»
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Sobre o Filme:

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Brian Dettmer – Esculturas em Livros

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> Brian Dettmer revela-nos as entranhas destes livros antigos com uma mestria tri-dimensional, apresentando esculturas complexas e criativas.
Um trabalho muito interessante.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Apelo ao regresso dos Livros de Bolso

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Descobri este fim-de-semana, na rua transversal à Bertrand do Chiado, uma mini Feira do Livro que se realiza todos os Sábados, vim a saber, até às 18H00.
Não são mais do que meia dúzia de bancas, é verdade, mas para alguém que vive viciado em livros é o quanto baste.
Esta feira tem no entanto uma particularidade, só encontramos livros antigos, fora de circulação, daqueles que fazem parte da memória de muitos e que só encontramos em alfarrabistas. Uma boa oportunidade para encontrar um ou outro livro interessante e o preço é quase dado. Foi o caso dos livros que comprei (por apenas 2€ cada): Amok de Stefan Zweig; A Cidadela de A. J. Cronin; O Americano Tranquilo de Graham Greene; Pierrette de Honoré de Balzac e Teresa Raquin de Émile Zola.
Estes livros fazem parte de uma colecção que surgiu em finais dos anos sessenta, editada por um grupo de editores associados, a que deram o nome de "Livros Unibolso".

O clássico de W. Somerset Maugham "O Fio da Navalha", foi o primeiro livro desta colecção com mais de cem títulos.
Se a ideia que preside à edição deste tipo de livro é a de ajudar a
"massificar a leitura e a difundir autores e livros", julgo que não seria de todo despropositado recuperar e reeditar estes livros na sua forma original (ver colecção aqui).

Neste sentido, destaco quer a iniciativa da editora
Dom Quixote que quis "tornar a leitura mais acessível a todos" e "acompanhar as tendências que já se verificam noutros países europeus", depois de ter constatado que "não existia no mercado português uma oferta de livros de bolso sólida e diversificada" (ver lançamento aqui e títulos aqui), quer a da Biblioteca Independente, que em parceria entre a Assírio & Alvim, a Cotovia e a Relógio d’Água tem vindo a reunir, em formato bolso, títulos e autores escolhidos de entre os catálogos das três editoras.

Embora a lista de livros editados neste formato contenha títulos bem interessantes (já escrevi aqui sobre três deles), não há nada que possa equiparar-se aos clássicos, essenciais em qualquer biblioteca.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

"Em muitas ocasiões a leitura de um livro fez a fortuna de um homem, decidindo o curso de sua vida."

Ralph Waldo Emerson

quinta-feira, 14 de maio de 2009

A Família

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Puzo começa por abrir-nos a porta do Vaticano e apresenta-nos o cardeal Rodrigo Bórgia e respectiva Família. Antevemos de imediato que vamos privar com eles e conhece-los intimamente ao cabo de algumas linhas. César, João, Lucrécia e Godofredo, os filhos que, sendo Cardeal, não lhe era permitido ter. Mas, à semelhança de outros nesta época, não se imiscuiu de manter uma vida de prazeres carnais e de hábitos mundanos. E continuaria a pratica-los, apesar das acusações frequentes de que era alvo, entre outros pelo padre Girolamo Savonarola que viria a ser excomungado e condenado à morte por pregar violentamente contra a Igreja de Roma e por recusar-se a obedecer ficando calado.

A história desta família começa com a elevação do cardeal Rodrigo Bórgia a sumo pontífice da Igreja Católica, Alexandre VI, após manipular as eleições papais de 1492. Quando o papa Inocêncio faleceu, Julião (Giuliano) della Rovere era considerado por todos como a escolha natural para o suceder. Apercebendo-se disso, Rodrigo Bórgia apressa-se a fazer um acordo secreto com Ascanio Sforza e acaba por ser eleito Papa, com grande maioria no conclave, em detrimento de Julião della Rovere, comprando desta forma um inimigo que conspiraria contra ele durante os 11 anos que durou o seu papado.

Após a coroação, Alexandre VI faz de César cardeal com apenas 16 anos. A nomeação não foi inesperada, mas César não ficou contente com ela. Corria nas suas veias sangue de soldado e César não deixava de pensar que o cargo de comandante do exército ocupado pelo seu irmão João lhe pertencia por direito. Mas Alexandre conjecturava noutro sentido.
Assegurar o futuro (entenda-se fortuna) dos filhos e, por meio destes o seu, era mesmo o seu único propósito na terra. O destino de César seria sucedê-lo como Papa.
E, sob o pretexto de que a família deve ser preservada acima de qualquer sacrifício, transforma-os em verdadeiras peças de xadrez, que move a seu bel-prazer tal qual peões que coloca ardilosamente em jogo num tabuleiro gigantesco com o fim de conseguir e firmar, através do casamento, a aliança política mais vantajosa.
A sua ganância não conhece limites e em nome da Família, Alexandre VI leva César e Lucrécia a cometerem o pecado do incesto, antes de casá-la com Giovanni Sforza.
A forma como depois Puzo conduz a relação dos dois irmãos quase nos leva a sentir compaixão pela impossibilidade de estes viverem abertamente o seu amor, apesar da sua natureza.

Por altura da anulação do enlace de Lucrécia com Giovanni Sforza, João é brutalmente assassinado. O acto vinga o ódio daquele que o comete e o ódio de todos aqueles que sofreram às mãos da sua crueldade.
A dor da perda assola profundamente Alexandre VI, mas não tanto quanto a suspeita de que João possa ter sido assassinado pelo seu próprio irmão César.
Apesar disso, César vê aqui a oportunidade de tornar-se general do papa e unir os Estados Papais de uma vez, dilatando a Santa Igreja Católica Romana pelo mundo fora, como era desejo do pai. E consegue, ainda que por pouco tempo.
As vitórias sucedem-se. César consegue destruir o poder dos Orsini e conquista finalmente a Romagna. (César priva durante este período com Maquiavel. O fascínio deste por César é tão grande que serviu de inspiração para escrever "O Príncipe").

Perante tal cenário e o fracasso de todas as tentativas levadas a cabo para travar César e abalar a influência de Alexandre VI, o cardeal Julião della Rovere resolve que está na hora de tratar pessoalmente do assunto e pôr fim à era dos Bórgia.
A oportunidade não tardou em surgir, e Alexandre VI sucumbe finalmente às mãos dos seus inimigos, não sem antes confessar que o seu único pecado foi amar a sua família acima de tudo, quase querendo ser perdoado pelo leitor e definitivamente pelos filhos.

Para Puzo, tenho apenas uma palavra, simplesmente – sublime – para caracterizar a forma como este imortaliza, séculos depois esta família.
Como já confessei aqui, sinto um fascínio especial pela Itália Renascentista e em especial pela família Bórgia. Intriga-me a facilidade com que esta família e em especial Alexandre VI (um estrategista nato), move o Mundo e o faz rodar à volta dos seus interesses.

Recomendo igualmente a leitura do livro "A Noiva Bórgia" de Jeanne Kalogridis, apenas pela curiosidade em constatar que factos históricos e ficção podem ser mesclados e o resultado final ser igualmente prodigioso.

Jeanne Kalogridis explora o lado mais feminino da trama colocando em destaque Sancha de Aragão e Lucrécia, destacando a primeira ao narrar a sua história e peripécias vividas no seio desta família singular.

A título de curiosidade, Jeanne Kalogridis, é autora de inúmeros romances históricos e costuma escrever, também, sob o pseudónimo J. M. Dillard. Das suas obras destaco a série Star Trek adaptada ao cinema e à televisão com um enorme sucesso.