domingo, 27 de outubro de 2013
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Wilt
Delirante.
É esta a primeira palavra que me ocorre após ter lido esta
obra de Tom Sharpe.
Wilt, que iniciou uma série de livros à volta da personagem
Henry Wilt, é uma obra satírica editada pela primeira vez em 1976.
Wilt é um homem sem amor próprio nem
objectivos, professor de literatura numa escola politécnica, e casado com Eva
Wilt, mulher gorda e desequilibrada.
A vida dele resume-se a dar aulas a trabalhadores-estudantes
de vários ramos (talhos, siderurgia...) e passear o cão, de forma a não ter
grande convívio com a mulher. É nesses passeios com o cão que vão surgindo
ideias mirabolantes de assassinar a mulher fingindo um acidente.
Por seu lado, Eva Wilt é uma mulher influenciável e com a mania das limpezas (fiquem desde já familiarizados com Harpic), que cada
dia tem um objectivo diferente, seja fazer yoga, seja jardinagem, seja meditação...
Numa dessas modas, Eva conhece um casal rico, e, no meio de
inúmeras peripécias, dá-se uma festa mirabolante que vai levar ao cerne do
livro. A mulher desse casal atira-se a Wilt, ele recusa e acaba metido com uma
boneca insuflável. Posteriormente, Wilt serve-se dessa boneca para ensaiar como
vai fazer para se livrar da mulher.
Poderia revelar mais pormenores aqui – até porque estão
todos evidentes no livro – mas aguço-vos apenas a curiosidade: Wilt é sujeito a
interrogatórios ininterruptos para saber do paradeiro da mulher. E esses
interrogatórios são absolutamente loucos. Ao ponto de Wilt pensar no seguinte: “Desde
que se diga às pessoas aquilo que elas querem ouvir, estão dispostas a
acreditar na história menos plausível que se possa imaginar”.
Com uma escrita leve e escorreita, a gargalhada vai surgindo
a cada página lida.
Este terá sido dos livros mais divertidos que tive
oportunidade de ler até agora. E fiquei com curiosidade em ler mais aventuras
deste Henry Wilt.
terça-feira, 15 de outubro de 2013
Prémio Leya 2013
O romance Uma Outra Voz, de Gabriela Ruivo Trindade, uma portuguesa residente em Londres, ganhou esta terça-feira o Prémio Leya.
Também autora do blogue Far far away, diz que este tinha material para um livro.
domingo, 13 de outubro de 2013
Nobel da Literatura 2013
O prémio deste ano coube a Alice Munro, escritora de contos canadiana (não "canadense", como ouvi no dia da divulgação).
Nunca li nada dela, mas fiquei curioso em conhecer alguma da sua obra. Por isso, já cá tenho "Amada Vida", que me pareceu conter um conjunto de histórias inspiradoras.
Além disso, tenho interesse em ver a técnica de escrita de contos que ela utiliza, e aprender com isso.
Nota de rodapé:
Na contracapa deste livro refere-se que "uma poeta, na sua primeira festa literária..."
No meu tempo dizia-se poetisa...
Esta forma descuidada (ignorante?) de escrever português incomoda-me cada vez mais.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Pequeno apontamento de leitura
Após pôr de lado alguns livros cuja leitura tinha iniciado mas não me estava a satisfazer, eis que pego em Wilt, de Tom Sharpe.
Apenas uma palavra: delirante.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
Mais um desafio no 77 Palavras: utilizar sete palavras que comecem com "trans".
Desta vez, é esta a minha versão dos factos:
Após quase uma hora em frente ao espelho, Beatriz estava transfigurada. Era uma nova mulher. Ao sair de casa, transportava um sorriso transbordante. Nunca se sentira tão segura de si. Reparava em si nas montras translúcidas e nos olhares masculinos em transe. Atravessou a cidade a pé, podia ter ido de táxi. Nessa noite, até a lua a observava.
Entrou no restaurante. O Pedro aguardava-a num recanto a meia-luz. Quando a viu, transtornado, saiu-lhe:
– Que corpo transparente!
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Histórias em apenas 77 palavras
A escritora Margarida Fonseca Santos tem um blogue através do qual lança desafios regularmente para a escrita de pequenas histórias. Só há uma regra aplicável a todas: utilizar apenas 77 palavras. A partir deste pressuposto, vão surgindo vários desafios.
É sempre interessante e engraçado conceber uma história que encaixe nas regras estabelecidas: ora temos de usar determinadas palavras, ora há falta de algumas vogais nos verbos, ora temos de utilizar um conjunto de palavras homófonas, etc, etc, etc.
Deixo de seguida algumas das histórias que escrevi para lá.
Rita TEM UM ESPÍRITO POÉTICO, AMA OLHAR O CÉU E A LUA. Passava horas deitada no jardim a espreitar o que acontecia nas alturas. Ignorava os apelos da mãe para almoçar, os convites dos amigos para jantar. Nada a demovia. Vivia nas nuvens.
Quando chegou a Primavera, nasceram flores nos seus cabelos: rosas, cravos, margaridas… A multidão juntou-se à sua volta, curiosa com aquele fenómeno. Todos levavam uma flor do jardim da menina, e um sorriso feliz.
Desafio nº 41 - a propósito do dia do livro
No banco daquele jardim um livro permanecia. Quem passava, não resistia a abri-lo. Lia a página onde abria, e voltava a pousá-lo no banco. Ali ficava esquecido até outro curioso ir espreitar. O leitor seguinte lia uma nova página e restituía-o àquele banco. Cada pessoa apenas lia uma página daquele misterioso livro, desconhecendo o passado e o futuro da história lida. As restantes páginas mantinham-se brancas, imaculadas. A cada olhar curioso apenas era permitido ler uma página.
Desafio nº 50 – Com as palavras AGOSTO; A GOSTO; A CONTRAGOSTO; DESGOSTO
Naquela manhã de Agosto, o Luís passou pela casa da Luísa para irem aproveitar um dia de praia. Ela exigira. Ele ia a contragosto. Sol, calor, areia… Valia pelas meninas modelos que via passar…
À hora de almoço, pediram um prato de caracóis a gosto, uma bifana para cada um, a acompanhar uma cerveja. Ali permaneceram. A meio da tarde, para desgosto da Luísa, o Luís não aguentava mais e foi embora. A relação terminou nessa tarde.
sábado, 17 de agosto de 2013
Que Importa a Fúria do Mar
Mais um contributo da Filomena:
Numa narrativa cuidada e sui generis (até no aspecto gráfico), movendo-se numa intriga viajante e na busca dumas cartas atiradas a caminho do Tarrafal, Eugénia, uma jornalista emotiva e paciente ausculta, escuta e aguarda o relato de Joaquim-um sobrevivente, não só do Tarrafal, mas também de um amor antigo, mas nunca esquecido.
Ao longo do calvário que foi a sua ida para o Tarrafal, com o final inesperado que prende o leitor até à última linha, ficamos a saber mais sobre uma época, encaixamo-nos nos monólogos de Eugénia e tememos o Guarda Cabaço. Um livro a não perder e a apreciar quanto antes, porque cada capítulo é uma surpresa inteligente que nos remete para a mundividência duma jovem, mas já experiente, escritora.
[...] Ponho-o dentro de um balde de cal viva, Capitão. Vai ver como se lhe solta a língua.
Irritou-se Manuel dos Arames com a prontidão do Viegas a alvitrar torturas mais medonhas do que ele conseguia, no momento, cogitar. Como se lhe soltou a língua sei eu, que os comunistas já te fizeram a cabeça, meu malandro. A mim não me arrancam nada, [...]
Irritou-se Manuel dos Arames com a prontidão do Viegas a alvitrar torturas mais medonhas do que ele conseguia, no momento, cogitar. Como se lhe soltou a língua sei eu, que os comunistas já te fizeram a cabeça, meu malandro. A mim não me arrancam nada, [...]
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
O Palácio da Meia-Noite
O autor começa por alertar no prólogo que era bastante mais novo na altura em que escreveu este livro e que, por isso, o poderia ter alterado e explica porque não o fez: “Pareceu-me mais honesto deixá-lo tal como o escrevi, com os recursos e a tarimba daquele tempo”.
Só posso dizer: ainda bem que não o fez! É um regalo ver os contornos que começam a ser definidos aqui, reconhecer a semente daquela que viria a ser a sua grande obra.
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Do autor: Carlos Ruiz Zafón - diz que cedo (com 5 ou 6 anos) soube que ia ser escritor.
Da obra: começa por publicar «O Príncipe da Neblina» (1993), seguiu-se «O Palácio da Meia-Noite» (1994) e «As Luzes de Setembro» (1995), este último a publicar entre nós assim que houver tradução disponível e para finalizar «Marina». Os três primeiros formam a Trilogia da Neblina que Zafón caracteriza de literatura juvenil.
A consagração enquanto escritor ‘para adultos’ vem em 2001 quando publica «A Sombra do Vento», que rapidamente se torna num dos livros mais lido em todo o mundo. Apesar dos numerosos convites para passar o livro a filme, o autor diz acreditar não ser possível fazer um filme melhor do que aquele que o leitor faz assim que começa a ler a história e que por isso, fazer um filme seria redundante, irrelevante e totalmente desnecessário. Quem lê Zafón sabe do que ele fala…
Segue-se «O Jogo do Anjo» (2008) que rapidamente se converteu, à semelhança de «A Sombra do Vento» num best-seller e sobre o qual já escrevi aqui. Ambos fazem parte de uma tetralogia que o autor dedica à sua cidade natal – Barcelona. Segue-se «O Prisioneiro do Céu» (2011) e quer-me parecer que não vai tardar muito para alguém aqui escrever sobre ele.
Mas vamos ao livro que nos conduz até aqui: «O Palácio da Meia-Noite».
Não tem comparação com «A Sombra do Vento» e nem mesmo com «O Jogo do Anjo», não encontramos nele a Daniel Sempere, nem o Cemitério dos Livros Esquecidos, mas facilmente reconhecemos o condão que conduz cada e todas as histórias que compõem este livro, polvilhado de frases profundas e aparentemente sem sentido.
Uma maldição, um fatídico destino traçado à partida, um espectro que vagueia semeando morte e sofrimento, um segredo escondido durante anos e finalmente revelado, entre outros ingredientes que um seguidor atento de Zafón não terá dificuldade em reconhecer.
O cenário é outro e somos transportados para Calcutá, Índia, anos 30, onde não falta nada para que fiquemos presos a cada linha da primeira à última página.
Da história: Ben e Sheere, dois irmãos gémeos, separados à nascença para conseguirem fugir ao pior dos destinos: o desejo de vingança de Jawahal.
Aryami Bosé, a avó, decide entregar Ben aos cuidados de Thomas Carter que dirige o orfanato St. Patrick enquanto mantem Sheere sob a sua proteção.
Dezasseis anos depois, o terrível Jawahal volta para ameaçar tudo e todos e completar os seus diabólicos planos. No centro deste turbilhão de acontecimentos, oito membros da Chowbar Society - Isobel, Roshan, Siraj, Michael, Seth, Ian, Ben e Sheere – que vão sentir, literalmente, o fogo do ameaçador e sinistro Jawahal, contra o qual vão ter de lutar, vencendo os seus receios mais terríveis.
domingo, 30 de junho de 2013
Porque Falham as Nações
Trata-se de um livro revelador.
Daron Acemoglu, professor no MIT, e James A. Robinson, docente em Harvard, dão uma nova abordagem às causas do sucesso e fracasso dos países, numa análise não circunstancial, e olhando além da espuma dos dias.
“Este livro trata das enormes diferenças de rendimentos e níveis de vida que separam os países ricos do mundo, como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Alemanha, dos da África Subsariana, da América Central e do Sul da Ásia.”
Há realidades institucionais que se vão tecendo e conduzem ao sucesso ou ao fracasso dos países. É necessário conhecer melhor o passado e estudar a dinâmica histórica das sociedades.
Através de inúmeros exemplos, para vários países e em momentos diferenciados, os autores explicam o sentido que algumas mudanças absolutamente contingentes imprimiram no rumo das sociedades. Detêm-se particularmente no caso da Grã-Bretanha, apresentado como caso de sucesso. Em contraponto, os casos de fracasso mais gritantes são os de países africanos.
Há dois conceitos centrais que vão acompanhar a análise: instituições extractivas e instituições inclusivas. As instituições relevantes para o estudo são as políticas e as económicas.
As extractivas, como o próprio nome indica, são instituições cujo objectivo é extrair o máximo possível da sociedade. A Coreia do Norte ou o Zimbabué são exemplos deste tipo de instituições.
“Para serem inclusivas, as instituições económicas devem integrar a protecção da propriedade privada, um sistema jurídico imparcial e a prestação de serviços públicos que assegurem condições equitativas para os que indivíduos possam fazer trocas e celebrar contratos; devem igualmente permitir a entrada de novas empresas e que as pessoas escolham as suas carreiras.”. Exemplo disto são os Estados Unidos e a Grã-Bretanha.
“Designaremos as instituições políticas que são suficientemente centralizadas e pluralistas por instituições políticas inclusivas. Quando um destes requisitos não for satisfeito, chamar-lhes-emos instituições políticas extractivas.”
Há uma relação muito estreita entre o tipo de instituições políticas e económicas existente em cada país, e ambas se influenciam reciprocamente. Instituições económicas inclusivas levam a instituições políticas inclusivas e vice-versa.
A partir daqui seria maçador estar a expor em pormenor os muitos exemplos, comparações e análises que este livro contém. De referir apenas algumas das muitas curiosidades que ficamos a conhecer com esta leitura: cidades que estão em dois países, sendo desenvolvidas num e atrasadas noutro; presidentes que ganham a lotaria; uma fotografia nocturna extremamente reveladora das duas Coreias; empresários que o são por terem contactos privilegiados; perspectivas de países que irão singrar e outros que dificilmente o conseguirão.
Uma coisa é certa: desenvolvimento não tem a ver com cultura, com geografia, nem com ignorância das elites. Tem a ver com a natureza das instituições que a contingência histórica e social permitiu que surgissem e se consolidassem.
Ao ir avançando na leitura deste livro, dei comigo a ver a realidade à luz dos seus parâmetros. Este livro funciona como um excelente guia para analisar notícias e medidas de natureza política e económica que vão surgindo diariamente. Nessa medida é altamente enriquecedor. E deveria ser lido por todos os cidadãos e reflectido com seriedade e sem peias de natureza ideológica.
segunda-feira, 27 de maio de 2013
sábado, 25 de maio de 2013
Feira do livro de Lisboa
Já lá fui.
Já me desgracei.
Vieram oito (aproveitando promoções e afins):
- O Espião que Saiu do Frio, de John Le Carré;
- Agosto, de Rubem Fonseca;
- A Cidade de Ulisses, de Teolinda Gersão;
- A Ilha, de Sándor Márai;
- Dublinesca, de Enrique Vila-Matas;
- A Cidade dos Prodígios, de Eduardo Mendoza;
- Submissão, de Amy Waldman;
- Servidão Humana, de Somerset Maugham.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
O Carteiro de Pablo Neruda
Mario Jiménez, um jovem pescador, decide um dia que não foi talhado para as lides do mar e resolve abandonar o seu ofício para se converter em carteiro. Torna-se assim no carteiro do poeta Pablo Neruda, o único que recebe e envia correspondência na Ilha Negra.
Mario admira Neruda e aguarda o dia em que o poeta lhe dedique um livro ou aconteça mais do que uma breve troca de palavras ou o gesto ritual da gorjeta. O seu desejo ver-se-á finalmente realizado e entre os dois vai estabelecer-se uma relação muito peculiar.
Mario começa a ler a poesia de Neruda que começa a despertar-lhe sentimentos muito próprios. Não conseguindo resistir-lhe, começa a viver intensamente não só as metáforas que dão um sentido inesperado à sua vida, mas vai também ganhando consciência política, ou não estivéssemos nós em 1969.
Skármeta conta-nos a história de Mario a par e passo com a de Neruda, comunista assumido, galardoado em 1971 com o prémio Nobel da Literatura, com a de Salvador Allende, o primeiro marxista a ser eleito democraticamente em todo o mundo ocidental e a de Augusto Pinochet, o homem de direita que tomou o poder após um golpe militar que acabaria por ditar a morte de Allende, ainda que o nome deste último não apareça em nenhuma das páginas que compõem o livro.
As metáforas servem os desígnios do amor e Mario acaba casado com Beatriz González e Neruda como testemunha. Durante a cerimónia, o poeta recebe a notícia de que será Embaixador em Paris. Com a sua partida, Mario entrega-se a sentimentos de revolta com a vida e com a sua condição de explorado.
Neruda pede entretanto a Mario que lhe envie os sons da sua terra e este decide juntar um poema da sua autoria à gravação. Mostrando sempre gratidão e admiração pelo poeta, Mario dedica-lhe "Ode à Neve sobre Neruda em Paris":
"Branda companheira de passos sigilosos,
abundante leite dos céus,
imaculada fachada da minha escola,
lençol de viajantes silenciosos
que vão de pensão em pensão
com um retrato amarfanhado nos bolsos.
Ligeira e plural donzela,
asa de milhares de pombas,
lenço que se despede
de não sei bem o quê.
Por favor minha pálida bela,
cai amável sobre Neruda em Paris,
veste-o de gala com o teu alvo
traje de almirante,
e trá-lo na tua leve fragata
a este porto onde sentimos tanto a sua falta."
Neruda regressa à Ilha Negra, mas vem doente, preconizando o fim de um período de sonho e de esperança. A situação crítica do Chile, à época, precipita o golpe de Estado que leva ao poder Augusto Pinochet a 11 de Setembro de 1973. Mario consegue chegar à fala com Neruda, recolhido no seu quarto desde que chegou de Paris, com febres muito altas. Não tardou que o poeta fosse levado para Santiago, onde viria a morrer na Clínica Santa Maria, a 23 de Setembro de 1973. A televisão noticiou a morte de Neruda. Mario não dormiu nessa noite e, por volta das cinco da manhã, vieram-no buscar para uma acção de rotina. O que aconteceu ninguém sabe, mas a consciência política pode revelar-se um perigo quando serve para despertar outras ...
sábado, 27 de abril de 2013
A Ideia de Europa
Antes de mais, uma manifestação de interesse: sinto-me genuína
e intrinsecamente europeu, tenho orgulho deste continente, apesar da muita
História de que é feito. Numa palavra, serei eurocêntrico.
A origem deste livro é uma palestra de George Steiner no Instituto
Nexus.
O que é que define a Europa para este pensador europeu?
Numa argumentação em 5 linhas, Steiner traça aquilo que
entende serem as realidades que configuram e dão identidade à Europa:
“Cinco axiomas para definir a Europa: o café; a paisagem a
uma escala humana que possibilita a sua travessia; as ruas e praças nomeadas
segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do passado – em Dublim,
até nos terminais rodoviários se indica o caminho para as casas dos poetas; a
nossa descendência dupla de Atenas e Jerusalém; e, por fim, a apreensão de um
capítulo derradeiro, daquele famoso ocaso hegeliano que ensombra a ideia e a
substância da Europa mesmo nas suas horas mais luminosas.”
De uma forma apaixonante e enriquecedora, Steiner
transporta-nos para além do olhar comum, para longe da espuma dos dias, e
deixa-nos com sede de saber mais. É de tal forma assim, que li o livro duas
vezes seguidas para melhor poder intuir-lhe o espírito. Para os europeus, este
pequeno livro devia constar na mesa-de-cabeceira, e ser lido várias vezes por
ano.
Vamos então às linhas apontadas por Steiner:
I – o café
“A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés
de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões
de Palermo. (…) Desenha-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores
essenciais da «ideia de Europa».”
Embora pareça uma ideia simples, um café na Europa continental não é a mesma coisa que um pub inglês ou um bar irlandês, tal como
é diferente de um bar americano. Os ambientes são diversos, os conteúdos
também. As realidades humanas possíveis em cada um desses espaços são
diferentes.
II - a paisagem a uma
escala humana que possibilita a sua travessia
“A Europa foi e é
percorrida a pé. Isto é fundamental. A cartografia da Europa é determinada
pelas capacidades, pelos horizontes percepcionados dos pés humanos.”
Segundo Steiner, há uma “relação essencial entre a
humanidade europeia e a sua paisagem. Metaforicamente, mas também
materialmente, essa paisagem foi moldada, humanizada, por pés e mãos. Como em
nenhuma outra parte do globo, as costas, os campos, as florestas e os montes da
Europa, de La Coruña a S. Petersburgo, de Estocolmo a Messina, tomaram forma,
não tanto devido ao tempo geológico como ao tempo histórico-humano.”
Tal como com os cafés, Steiner faz o contraponto face aos
outros continentes.
III - as ruas e
praças nomeadas segundo estadistas, cientistas, artistas e escritores do
passado
Na Europa, os nomes atribuídos às ruas, praças, locais são
os nomes de personalidades do passado. Cada recanto da Europa tem o peso da
História. “Cidades como Paris, Milão, Florença, Francoforte, Weimar, Viena,
Praga ou S. Petersburgo são crónicas vivas. Ler as respectivas placas
toponímicas é folhear um passado presente.” O contraste, por exemplo, com os
Estados Unidos, é dramático. “As avenidas, calçadas e ruas americanas são
simplesmente numeradas ou, na melhor das hipóteses, como em Washington,
conhecidas pela sua orientação, sendo o número seguido de «North» ou «West». E
deixa esta deliciosa ironia: “os automóveis não têm tempo de considerar uma Rue
Nerval ou um Largo Copernicus.”
Além deste lado evocativo, de referência histórica, cada um
daqueles nomes tem uma carga histórica: “até uma criança na Europa de dobra sob
o peso do passado”.
Tudo se resume nisto: “Um europeu culto é apanhado na teia
de um in memoriam simultaneamente
luminoso e sufocante.”
IV – a herança dupla
de Atenas e Jerusalém
“Esta relação, simultaneamente conflituosa e sincrética,
ocupou o debate teológico, filosófico e político desde os Doutores da Igreja a
Leon Chestov, de Pascal a Leo Strauss. (…) Ser europeu é tentar negociar,
moralmente, intelectualmente e existencialmente, os ideais, afirmações, praxis
rivais da cidade de Sócrates e da cidade de Isaías.”
Estas heranças permitiram a música, a matemática e o
pensamento especulativo. Todo o desenvolvimento de ideias que foi possível na
Europa tem a sua raiz nestas duas cidades, e daqui partiu para o mundo. A
filosofia, o vocabulário, mas também a matriz bíblica, pintam a traço grosso a
ideia de Europa.
“O Judaísmo e as duas notas principais de rodapé, o
Cristianismo e o Socialismo Utópico, são descendentes do Sinai”.
V – uma consciência
própria escatológica
Uma das marcas da Europa é o facto de pensar-se a si mesma
como tendo um fim, uma certa ideia de tragédia. “Muito depois daquilo que os
historiadores denominam como «o pânico do ano mil», as profecias de condenação
escatológica e as numerologias que procuram fixar a sua data povoam a
imaginação popular europeia.”
“É como se a Europa, diversamente de outras civilizações,
tivesse intuído que um dia ruiria sob o peso paradoxal dos seus feitos e da
riqueza e complexidade sem par da sua História.
Duas guerras mundiais, que, na verdade, foram guerras civis
europeias, conduziram a esta intimação ao ponto de ebulição.”
É à volta destas cinco linhas que George Steiner traça as
fronteiras da ideia de Europa.
É a partir daqui que cabe a cada um de nós, europeus de
qualquer país, pensar, compreender e defender este legado, com os seus momentos
brilhantes e tenebrosos, como tudo aquilo a que o Homem põe a mão.
Fica uma certeza: conhecer o passado é compreender o
presente e ter a possibilidade de projectar o futuro. A Europa tem muito
passado; saibamos dar-lhe futuro.
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livros 2012
quinta-feira, 4 de abril de 2013
quarta-feira, 3 de abril de 2013
terça-feira, 2 de abril de 2013
A Independência de uma Mulher
Se tiver de apontar os motivos pelos quais comprei este livro, diria que terá sido pelo nome da autora. Desconhecendo por completo a sua obra e não tendo desculpa para o facto, uma vez que o seu livro mais conhecido - Pássaros Feridos - faz parte da pilha sem fim lá de casa de livros a ler, pareceu-me uma boa oportunidade para conhecer o estilo desta brilhante escritora, dizem.
Depois, porque asseguravam tratar-se de «um livro de aventuras e romance, em que uma mulher forte e independente deixa a sua marca no mundo» - o tipo que favorece a protagonista e que prende desde logo a minha atenção.
E assim permaneceu na dúvida este livro, à espera...
Depois de ler Orgulho e Preconceito, motivada por algo que não se explica, resolvi retirar este livro do seu coma literário e, depois de ler novamente a sinopse, cheguei à conclusão que o timing não podia ser mais perfeito!
Não vou acrescentar uma vírgula à mesma ou estarei a desvendar uma história que merece ser lida e descoberta:
«Toda a gente conhece a história de Elizabeth Bennet, que se casou com Mr. Darcy em Orgulho e Preconceito. Mas o que aconteceu a Mary, a sua irmã?
Todas as irmãs de Mary conquistaram o seu destino: Jane tem um casamento feliz e uma grande família; Lizzie e Mr. Darcy ganharam uma extraordinária reputação social; Lydia conquistou uma reputação bem diferente; e Kitty é requisitada pelos salões mais luxuosos de Londres. Mary, por outro lado, é uma mulher transformada, agora independente de obrigações familiares. Decide escrever um livro onde põe a nu os males do seu país e o drama dos pobres. Mas as suas viagens de pesquisa irão colocar em risco a sua própria vida - e acabarão por lançá-la nos braços do homem que a inspirou.»
E visto que vou finalmente despedir-me de todos estes personagens, não posso fazê-lo sem antes confessar o meu fascínio por Mr. Darcy. Se tivesse de apontar um personagem literário inspirador, esta seria, sem dúvida, a minha escolha.
A sua transformação ao longo de Orgulho e Preconceito e depois em A Independência de uma Mulher é gritante, faz-nos acreditar que não há impossíveis para o poder redentor do amor e, tomados pela sua mão, esquecemos junto com ele as marcas do passado e abrimos um novo capítulo em mais uma história cujo fim pode ser aquilo que quisermos.
Só precisamos seguir o exemplo de Colleen McCullough e dar largas à imaginação!
sábado, 23 de março de 2013
terça-feira, 12 de março de 2013
Kramer contra Kramer
Este livro surge por pura curiosidade.
Em Fevereiro, quando não se falava de outra coisa a não ser em Óscares, decidi averiguar o filme que havia ganho o tão afamado globo de ouro em 1980 – o ano do meu nascimento.
And the winner is: Kramer vs. Kramer.
Venceu em cinco categorias: melhor filme, melhor director, melhor actor (Dustin Hoffman), melhor actriz secundária (Meryl Streep) e melhor argumento adaptado.
Satisfeita esta curiosidade, vamos a outra. Tento primeiro ler o livro antes de ver o filme. Se não souber de antemão que este é baseado num livro, registo o facto e trato logo de o descobrir. E este foi um daqueles acasos. Lá estava ele à minha espera numa dessas feiras de livros despachados por já estarem fora de prazo.
Sobre a história não há muito a dizer. Ted Kramer, o típico pai de família que não vota muita atenção à família pois o sustento da mesma vem em primeiro lugar. A sua única preocupação é fazer bem feito o seu trabalho no intuito de ser reconhecido profissionalmente e ganhar mais dinheiro para poder prover tudo o que a sua família precisa. Recaem portanto sobre Joanna, a sua esposa, todas as agruras da vida doméstica. Joanna chega um dia ao limite e sai de casa, deixando um bilhete, Billy e todas as obrigações de dona de casa com Ted, que está longe de imaginar o que isso significa.
Assistimos às dificuldades e à forma como vão sendo vencidas com o apoio dos amigos e vizinhos. Joanna reaparece entretanto, decidida a ficar com o filho. Ted não cede facilmente pelo que acabam por encontrar-se na barra de um tribunal onde ambos lutam pela custódia de Billy.
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