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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Wilt

Delirante.
É esta a primeira palavra que me ocorre após ter lido esta obra de Tom Sharpe.
Wilt, que iniciou uma série de livros à volta da personagem Henry Wilt, é uma obra satírica editada pela primeira vez em 1976.
Wilt é um homem sem amor próprio nem objectivos, professor de literatura numa escola politécnica, e casado com Eva Wilt, mulher gorda e desequilibrada.
A vida dele resume-se a dar aulas a trabalhadores-estudantes de vários ramos (talhos, siderurgia...) e passear o cão, de forma a não ter grande convívio com a mulher. É nesses passeios com o cão que vão surgindo ideias mirabolantes de assassinar a mulher fingindo um acidente.
Por seu lado, Eva Wilt é uma mulher influenciável e com a mania das limpezas (fiquem desde já familiarizados com Harpic), que cada dia tem um objectivo diferente, seja fazer yoga, seja jardinagem, seja meditação...
Numa dessas modas, Eva conhece um casal rico, e, no meio de inúmeras peripécias, dá-se uma festa mirabolante que vai levar ao cerne do livro. A mulher desse casal atira-se a Wilt, ele recusa e acaba metido com uma boneca insuflável. Posteriormente, Wilt serve-se dessa boneca para ensaiar como vai fazer para se livrar da mulher.
Poderia revelar mais pormenores aqui – até porque estão todos evidentes no livro – mas aguço-vos apenas a curiosidade: Wilt é sujeito a interrogatórios ininterruptos para saber do paradeiro da mulher. E esses interrogatórios são absolutamente loucos. Ao ponto de Wilt pensar no seguinte: “Desde que se diga às pessoas aquilo que elas querem ouvir, estão dispostas a acreditar na história menos plausível que se possa imaginar”.

Com uma escrita leve e escorreita, a gargalhada vai surgindo a cada página lida.

Este terá sido dos livros mais divertidos que tive oportunidade de ler até agora. E fiquei com curiosidade em ler mais aventuras deste Henry Wilt.

domingo, 30 de junho de 2013

Porque Falham as Nações


Trata-se de um livro revelador.

Daron Acemoglu, professor no MIT, e James A. Robinson, docente em Harvard, dão uma nova abordagem às causas do sucesso e fracasso dos países, numa análise não circunstancial, e olhando além da espuma dos dias.

“Este livro trata das enormes diferenças de rendimentos e níveis de vida que separam os países ricos do mundo, como os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a Alemanha, dos da África Subsariana, da América Central e do Sul da Ásia.”

Há realidades institucionais que se vão tecendo e conduzem ao sucesso ou ao fracasso dos países. É necessário conhecer melhor o passado e estudar a dinâmica histórica das sociedades. 

Através de inúmeros exemplos, para vários países e em momentos diferenciados, os autores explicam o sentido que algumas mudanças absolutamente contingentes imprimiram no rumo das sociedades. Detêm-se particularmente no caso da Grã-Bretanha, apresentado como caso de sucesso. Em contraponto, os casos de fracasso mais gritantes são os de países africanos.

Há dois conceitos centrais que vão acompanhar a análise: instituições extractivas e instituições inclusivas. As instituições relevantes para o estudo são as políticas e as económicas.

As extractivas, como o próprio nome indica, são instituições cujo objectivo é extrair o máximo possível da sociedade. A Coreia do Norte ou o Zimbabué são exemplos deste tipo de instituições.

“Para serem inclusivas, as instituições económicas devem integrar a protecção da propriedade privada, um sistema jurídico imparcial e a prestação de serviços públicos que assegurem condições equitativas para os que indivíduos possam fazer trocas e celebrar contratos; devem igualmente permitir a entrada de novas empresas e que as pessoas escolham as suas carreiras.”. Exemplo disto são os Estados Unidos e a Grã-Bretanha.

“Designaremos as instituições políticas que são suficientemente centralizadas e pluralistas por instituições políticas inclusivas. Quando um destes requisitos não for satisfeito, chamar-lhes-emos instituições políticas extractivas.”

Há uma relação muito estreita entre o tipo de instituições políticas e económicas existente em cada país, e ambas se influenciam reciprocamente. Instituições económicas inclusivas levam a instituições políticas inclusivas e vice-versa.

A partir daqui seria maçador estar a expor em pormenor os muitos exemplos, comparações e análises que este livro contém. De referir apenas algumas das muitas curiosidades que ficamos a conhecer com esta leitura: cidades que estão em dois países, sendo desenvolvidas num e atrasadas noutro; presidentes que ganham a lotaria; uma fotografia nocturna extremamente reveladora das duas Coreias; empresários que o são por terem contactos privilegiados; perspectivas de países que irão singrar e outros que dificilmente o conseguirão.

Uma coisa é certa: desenvolvimento não tem a ver com cultura, com geografia, nem com ignorância das elites. Tem a ver com a natureza das instituições que a contingência histórica e social permitiu que surgissem e se consolidassem.

Ao ir avançando na leitura deste livro, dei comigo a ver a realidade à luz dos seus parâmetros. Este livro funciona como um excelente guia para analisar notícias e medidas de natureza política e económica que vão surgindo diariamente. Nessa medida é altamente enriquecedor. E deveria ser lido por todos os cidadãos e reflectido com seriedade e sem peias de natureza ideológica.

terça-feira, 2 de abril de 2013

A Independência de uma Mulher



Se tiver de apontar os motivos pelos quais comprei este livro, diria que terá sido pelo nome da autora. Desconhecendo por completo a sua obra e não tendo desculpa para o facto, uma vez que o seu livro mais conhecido - Pássaros Feridos - faz parte da pilha sem fim lá de casa de livros a ler, pareceu-me uma boa oportunidade para conhecer o estilo desta brilhante escritora, dizem.
Depois, porque asseguravam tratar-se de «um livro de aventuras e romance, em que uma mulher forte e independente deixa a sua marca no mundo» - o tipo que favorece a protagonista e que prende desde logo a minha atenção.
E assim permaneceu na dúvida este livro, à espera...


Depois de ler Orgulho e Preconceito, motivada por algo que não se explica, resolvi retirar este livro do seu coma literário e, depois de ler novamente a sinopse, cheguei à conclusão que o timing não podia ser mais perfeito!
Não vou acrescentar uma vírgula à mesma ou estarei a desvendar uma história que merece ser lida e descoberta:


«Toda a gente conhece a história de Elizabeth Bennet, que se casou com Mr. Darcy em Orgulho e Preconceito. Mas o que aconteceu a Mary, a sua irmã?
Todas as irmãs de Mary conquistaram o seu destino: Jane tem um casamento feliz e uma grande família; Lizzie e Mr. Darcy ganharam uma extraordinária reputação social; Lydia conquistou uma reputação bem diferente; e Kitty é requisitada pelos salões mais luxuosos de Londres. Mary, por outro lado, é uma mulher transformada, agora independente de obrigações familiares. Decide escrever um livro onde põe a nu os males do seu país e o drama dos pobres. Mas as suas viagens de pesquisa irão colocar em risco a sua própria vida - e acabarão por lançá-la nos braços do homem que a inspirou.»


E visto que vou finalmente despedir-me de todos estes personagens, não posso fazê-lo sem antes confessar o meu fascínio por Mr. Darcy. Se tivesse de apontar um personagem literário inspirador, esta seria, sem dúvida, a minha escolha.
A sua transformação ao longo de Orgulho e Preconceito e depois em A Independência de uma Mulher é gritante, faz-nos acreditar que não há impossíveis para o poder redentor do amor e, tomados pela sua mão, esquecemos junto com ele as marcas do passado e abrimos um novo capítulo em mais uma história cujo fim pode ser aquilo que quisermos.

Só precisamos seguir o exemplo de Colleen McCullough e dar largas à imaginação!

domingo, 10 de março de 2013

Deixa-me entrar na tua vida


Alda e Luísa dividem um apartamento cujo único espaço comum é o hall de entrada. Alda é uma médica à primeira vista brilhante e querida de todos, Luísa é uma editora que vem partilhar a casa com a prima após esta ficar viúva. Duarte é um músico, amigo de Luísa.
Indo além neste retrato simplista, Alda, após a morte do marido, de quem não se consegue desligar, começa a beber. Embora diga que consegue controlar-se e que não é alcoólica, isso não corresponde à verdade. Luísa sabe da sua realidade, e tenta ajudá-la constantemente, mas em vão, abdicando da sua própria vida. Luísa vive em função de Alda. Não escolhe, não tem vida própria.
Luísa, entre os livros, as edições e os lançamentos, vai-se reaproximando de Duarte, um amigo de longa data, e que tinha estado ausente. Entre eles estabelece-se uma relação dúbia, de querer e não querer, de serem apenas amigos ou de serem mais qualquer coisa. Ele, sabendo do drama familiar de Luísa, tenta afastá-la desse mundo, tenta que ela tenha vida além da Alda.
Duarte vive entre os seus ensaios de jazz e a aproximação à Luísa. Com o desenrolar da história percebemos que Duarte tem uma experiência que pode ajudar Luísa a lidar melhor com a situação da Alda.
Neste livro, Margarida Fonseca Santos centra-se no tema do alcoolismo, e a história desenrola-se à volta destas três personagens. Luísa tenta ajudar Alda, que não quer ser ajudada e julga que está tudo bem. Duarte, o terceiro vértice deste triângulo, tenta ajudar Luísa a sair da sua dependência de Alda.
Com uma estrutura a três tempos, em que a cada momento uma das personagens principais vai assumindo o papel de narrador, Margarida Fonseca Santos transmite-nos as angústias e os sentimentos de cada uma de viva voz, e faz-nos entrar profundamente nessas vivências individuais. Ou seja, em “Deixa-me entra na tua vida” ganha vida a frase de Willian Styron: “nós vivemos várias vidas enquanto lemos”.