terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Ernestina




Não há nada de mais sublime do que ler um livro que nos fascina em todos os sentidos.

E não que seja um êxito de prateleira, que não é.
E, pelo que sei, também não esteve no top de vendas da maior parte das livrarias quando foi editado.
Do autor, o nome também não está rotulado de best-seller comercial entre nós.
Ao que consta, os seus livros vendem – na Holanda, onde tem sido reconhecido por críticos e leitores em geral.
Por cá, pese embora o empenho da Quetzal em publicar aquele que pode ser considerado uma descoberta literária para quem gosta do género, continua a ser, para muitos, um perfeito desconhecido.

J. Rentes de Carvalho conta-nos a sua história através de várias histórias ou não fosse ele um contador de histórias nato. As páginas não são mais do que as memórias de uma infância que se divide por Vila Nova de Gaia onde nasceu, o Porto onde estudou e Estevais onde passava as férias do mês de Agosto (gosto especialmente destes episódios, por serem tão reais).

Mas Ernestina é mais do que um romance autobiográfico, é também o nome da mãe do autor e sobre ela J. Rentes de Carvalho viria a dizer: «Mãe de um só filho, a sua vida, que foi uma de tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muitos os laços que a ela me prendem.» 
Penso que seja a simplicidade, a riqueza da linguagem típica e quase esquecida no tempo e que na boca de um transmontano me faz recordar tudo aquilo que parecia esquecido por ter caído em desuso. Quase que estou tentada a deixar aqui um rol de palavras que ninguém usa por aqui mas que ainda andam na boca de todos em Rapoula do Côa. Revivi através dele episódios da minha própria infância, onde a rudeza dos costumes moldavam as pessoas à boa maneira portuguesa. 
Em entrevista, J. Rentes de Carvalho diz escrever com o sentimento de pertença, ao povo, à língua e à terra em que nasceu, e posso acrescentar que isso está marcadamente à vista em todas as páginas que compõem o livro. Segundo ele, «(…) é uma questão de transmitir pela escrita uma certa franqueza interior, sem lindezas nem arrebiques, e chamando às coisas pelo seu nome, o que no contexto da literatura portuguesa contemporânea é capaz de parecer exótico.»
Pena este autor não ter o merecido destaque em Portugal.
Para finalizar, não resisto em deixar-vos aqui um ‘à parte’ - quando lhe perguntam em entrevista: E de Trás-os-Montes, que ventos lhe chegam? E ele responde que finalmente o saneamento básico chegou à sua aldeia (Estevais de Mogadouro). «O benefício, prometido há mais de quinze anos, avança agora à velocidade clássica das obras de Santa Engrácia, de maneira que não será tão cedo que dispensaremos o penico.
Mas as pessoas recomendam-me que não seja azedo e faça como elas fazem, que me habitue a aguentar e a esperar.» 
…à boa maneira portuguesa… mais uma vez!

domingo, 6 de janeiro de 2013

Livro

Este é a primeira obra que leio de José Luís Peixoto. 
Centra-se em Ilídio, um rapazinho que é abandonado pela mãe junto a um fontanário, e acompanha-o até à idade adulta, quando emigra para França. À procura da sua sorte, e atrás da Adelaide, a sua paixão correspondida. 
Relata as vivências de várias pessoas num ambiente rural, pequeno, provavelmente no Alentejo, e, também, a vida de quem emigrou para França. Num misto de campo e cidade, mas em que o padrão das personagens é semelhante: oriundas de um meio em que todos se conhecem, e em que todos sabem tudo de todos. E é neste ambiente que é possível criar situações que nos captam a atenção. 
Dividido em duas partes, os primeiros dois terços relatam as vivências acima. Depois há um corte abrupto, e surge-nos o último terço do livro, que me pareceu um momento de divagação do autor, entretecido com a continuação da parte anterior. Confuso para mim. 
O que me pareceu interessante nesta obra foi a utilização de palavras manifestamente populares, mas caídas em desuso ou para mim desconhecida. Enriquece o texto, deixa a curiosidade pelo significado, e fica um sorriso na cara. 
Por exemplo, “o touro estafonou-o todo”, ou “Vem. Estou pronta, meu amor, meu grande amor. Entra dentro de mim, estafona-me toda. Estou limpa e pronta.” Além desta, há muitas outras palavras estranhas que conferem graça ao longo de todo o romance. 
Ou a utilização de imagens como “quando a Adelaide saiu de trás do muro do chafariz, já uma vírgula iniciara o percurso em direcção ao seu útero.” 

Não tendo, na minha opinião, uma escrita luminosa, José Luís Peixoto consegue relatar bem uma história. E realço o termo “relato”, uma vez que parece que é disso que se trata. Os diálogos são praticamente inexistentes (se juntarmos todos os momentos de diálogo deste romance, não devem encher duas páginas), o que confirma que é possível escrever um livro ou romance sem diálogos. 
Quanto à escrita neste romance, achei notável, logo no início, o autor escrever várias páginas em que pôs o leitor a par de várias informações sem que a personagem Ilídio tivesse saído de junto do fontanário. É como se fosse projectado um vídeo, que pára num determinado momento, e surge uma voz off para nos contar outra coisa, e depois é retomada o movimento da imagem. Fantástico! 

Ler um novo autor é aprender uma nova linguagem. Peixoto, com este Livro, não me seduziu. Pode ser que no futuro faça uma nova tentativa.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Resoluções para 2013

"Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura - do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.

A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos "virtuais" que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim - mesmo numa sala de cinema - sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.

E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias - tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.

De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.

E não abdiquemos também do direito de pensar - arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. "O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas", escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.

Tentemos que o nosso 2013 não seja assim."

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Prémio Leya 2012

Nuno Camarneiro, de 35 anos, vence com Debaixo de Algum Céu. Um romance que é uma "exploração da ideia de purgatório", segundo o seu autor.
"Quase todo passado dentro de um prédio e em oito dias, entre o Natal e o Ano Novo, e cada inquilino atravessa durante esse período o seu purgatório pessoal".

Estou curioso.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final.
No meio você coloca ideias.

Pablo Neruda

domingo, 25 de novembro de 2012

Jesusalém


Neste romance, Mia Couto conta-nos a história de Silvestre Vitalício através do olhar de Mwanito, seu filho mais novo. 
Silvestre Vitalício vive num mundo muito próprio, não só fisicamente como psicologicamente. Vai para longe da cidade e estabelece um mundo só para ele e os filhos: Jesusalém. Ali todos são rebaptizados numa “cerimónia de desbaptismo”. 
“E fomos convocados um por um. E foi assim: Orlando Macara (nosso querido Tio Madrinho) passou a Tio Aproximado. O meu irmão mais velho, Olindo Ventura, transitou para Ntunzi. O ajudante Ernestinho Sobra foi renomeado como Zacaria Kalash. E Mateus Ventura, meu atribulado progenitor, se converteu em Silvestre Vitalício. Só eu guardei o mesmo nome: Mwanito”. Além destas personagens, há ainda a jumenta Jezibela (criação muito interessante com quem Silvestre Vitalício irá estabelecer uma curiosa relação), e Marta, que sai de Portugal à procura do marido traidor, e que será a peça chave no desbloqueio do romance. 
Com aquela cerimónia dá-se o corte com o passado. Para Silvestre Vitalício não havia passado, nem outro mundo além daquele. “Se não há passado, não há antepassados”. E também não havia mulheres. “Mulheres são como ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor”. 
A ligação com o mundo exterior é feita através de Tio Aproximado, que vive na cidade e regularmente vai a Jesusalém levar mantimentos. A relação entre ele e Silvestre Vitalício é turbulenta, e uma das razões é a falecida mulher de Silvestre, que também é irmã de Aproximado. 
Silvestre Vitalício é um homem calado, prepotente e violento, e todos se submetem às suas vontades. Apenas a partir da segunda parte (o romance está dividido em três “livros”), quando surge Marta, é que aquele equilíbrio é quebrado. 
Com personagens bem definidas psicologicamente, Mia Couto traça uma história simultaneamente simples e complexa, com momentos de humor, ternura e violência, e leva-nos para uma realidade muito particular.

domingo, 18 de novembro de 2012

Não resisto a partilhar isto com os leitores que por aqui passam. 
Recentemente participei em dois workshops de escrita criativa, organizados pela Genius y Meios, com a formadora e escritora Margarida Fonseca Santos. 
Alguns dias depois do segundo workshop, surgiu a ideia de todos os alunos daquele curso fazermos um conto, sendo que cada um só poderia escrever 77 palavras (numa alusão ao blogue da escritora Histórias em 77 palavras). 
Os dois primeiros lotes de 77 palavras já estão. Faltam os restantes 23 escritores. 
Está a ser um exercício muito divertido, interessante e inesperado. Quando estiver concluído, aparecerá neste blogue.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Ler Lobo Antunes

Confesso que deve tratar-se de uma limitação minha. Nunca consegui ler António Lobo Antunes. As crónicas em revistas, apenas de vez em quando. Livros, nunca. Não consigo entender a sua forma narrativa.
Apesar deste handicap, há uma coisa que gosto neste autor: muitos dos seus títulos são uma surpresa agradável. Por exemplo, o último: "Não é meia noite quem quer". É pura poesia.
Já tinha o tinha feito com outras obras: "Eu hei-de amar uma pedra", "Não entres tão depressa nessa noite escura", ou "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?".

sábado, 27 de outubro de 2012

Winston Churchill

Esta biografia de Winston Chuchill, da autoria de Sebastian Haffner, faz parte da colecção de livros de bolso "A minha vida deu um livro", lançada pelo Expresso.

O segredo não deve ser revelado no início, mas Winston Churchill teve uma vida alucinante. Entre o céu e o inferno, este político inglês de dimensão mundial viveu uma vida cheia de reviravoltas. 


Mudou duas vezes de partido, defendeu posições isoladamente contra as vozes maioritárias, teve derrotas e humilhações estrondosas, tinha um espírito militar mas é reconhecido como político, defendeu ideias próximas das de Hitler, demonizou Hitler e percebeu o perigo que representava antes de todos... Tinha a ideia de que o destino lhe reservava um desígnio maior, e encontrou-o quando ascende a Primeiro-ministro em 1940. 

Nascido em 1874 numa família de classe alta decadente, Winston Churchill foi um jovem medíocre, que falhou por completo na escola. Mudou esta percepção quando encontrou a sua principal vocação: a guerra. 

Participou em várias campanhas, em vários países, e irritou muitos políticos e militares com os seus escritos sobre as guerras de que fez parte. Ele tinha uma visão, ele sabia como fazer a guerra. Foram estas experiências na frente de batalha que lhe permitiram escrever e ter projecção no início do século XX. 

Partidariamente, começou no Partido Conservador, mas em 1904 “atravessou o corredor da Câmara” e tomou lugar na bancada dos Liberais. Passou a ser odiado e visto sempre com desconfiança. Mas é com os Liberais que chega ao governo, sendo ministro em várias pastas. Atinge o auge ao tornar-se Primeiro Lorde do Almirantado, ou seja, responsável pela Marinha Real Britânica, em 1911. “Com quase 37 anos de idade, Churchill estava, mais do que nunca, no seu elemento. Reinava agora sobre a maior armada do mundo e reinava de uma forma quase absoluta, sem a intervenção de qualquer outra pessoa. Reorganizou-a, constitui um Estado-Maior, virou todos os planos de guerra do avesso, ordenou que o aquecimento em toda a armada fosse convertido de carvão para óleo, mandou construir canhões maiores para os navios (na realidade, os maiores até à época), conseguindo tudo isto sem a oposição de almirantes ou capitães.” 

Mais tarde volta a ser ministro. E em 1924 volta a mudar de partido, juntando-se novamente aos Conservadores. Olhado sempre com desconfiança, vai escrevendo sobre as guerras e discursando sobre política. 

Entre 1929 e 1939, ou seja, entre os 55 e os 65 anos de idade, teve uma longa passagem pelo deserto. É neste período que escreve ainda mais, sobretudo sobre política internacional, mas nada do que escrevesse ou dissesse tinha o menor efeito. 

É sempre contrário às políticas de apaziguamento com a India, com Hitler, com os socialistas (o Partido Trabalhista surge na Inglaterra e irá acabar com a hegemonia entre conservadores e liberais). Este permanente espírito “do contra” será uma constante na sua convivência com os Primeiros-Ministros Asquith, Lloyd George e Chamberlain. 

Quando a Alemanha declara guerra à Inglaterra, em Setembro de 1939, Churchill é chamado novamente a assumir o Almirantado. Em Maio de 1940, torna-se Primeiro-ministro, sendo também Ministro da Defesa. 

Enquanto Primeiro-Ministro, terá uma acção incansável no sentido de derrotar Hitler. “Graças a Churchill, a Inglaterra atravessou-se no caminho da Alemanha em 1940, num momento em que esta quase parecia ter conseguido subjugar tudo à sua volta. Churchill obrigou a Inglaterra a agir contra os seus próprios interesses, mas de uma forma calculada ao milímetro. Esta guerra obrigou a Inglaterra a arriscar tanto a sua existência física como a sua existência económica. O país defendeu com êxito a sua integridade territorial, mas a economia ficou arruinada por muito tempo e o Império desintegrou-se. 

Graças a Churchill, não foi a Alemanha que passou a dominar a Europa, mas sim os Estados Unidos e a Rússia. Graças a Churchill, o fascismo deixou de desempenhar qualquer papel significativo no mundo, ficando o liberalismo e o socialismo a travar a luta pela primazia na política interna dos países.” 

Após a guerra, o governo cai e é derrotado nas eleições de 1945. Mantém-se como líder da oposição conservadora, voltando a ser Primeiro-Ministro entre 1951 e 1955, já fragilizado e com alguma política errática. 

Vive ainda até 1965.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Libros Libres

"Chama-se "Libros Libres" (Livros Livres, em português) e abriu o mês passado no bairro de Chamberí, em Madrid, capital espanhola. O nome é esclarecedor quanto à filosofia do espaço: trata-se de uma livraria onde, quem quiser, poderá levar um, dois, 10 ou 100 livros de forma totalmente gratuita.

Esta livraria inovadora, que conta também com um clube de vídeo, nasceu graças a uma iniciativa de uma organização não-governamental espanhola, a Grupo 2013, que se inspirou num local idêntico existente em Baltimore, nos Estados Unidos.

O conceito é simples. Os amantes da cultura que, num momento de crise, não tenham possibilidade de pagar pelos livros e de subscrever os serviços da livraria, podem ter acesso a eles sem qualquer custo, tudo com o objetivo de permitir a todos o acesso à cultura e ao cinema. 

Quem quiser, no entanto, pode tornar-se subscritor - a subscrição da livraria custa 12 euros por ano - para ajudar o espaço a crescer. Esta ajuda é também dada por particulares que oferecem os seus livros e também por algumas grandes editoras, que se associaram ao projeto e doaram vários exemplares de obras recém-publicadas ainda por estrear. 

Em declarações ao diário Clarín, Elisa Ortega, que integra a Grupo 2013 e é uma das funcionárias da livraria, explica que a reação das pessoas tem sido muito positiva: em média, há entre 20 e 30 visitantes por dia, na sua maioria jovens universitários e cerca de 50 novos livros são doados diariamente, o que tem enriquecido cada vez mais o espólio que terá agora entre 5.000 a 10.000 obras.

Projeto quer aumentar a riqueza intelectual

Para que o projeto continue a ser autosustentável, Ortega salienta que a ONG se responsabiliza por parte dos custos, contando com a generosidade dos subscritores na cobertura do restante valor. "Muita gente agradece-nos por levarmos a cabo esta tarefa e alguns doam-nos mais do que os 12 euros estimulados", revela a responsável, com satisfação.

Ainda assim, a essência da livraria não se perde. "Cada um faz o que pode, quando pode, e aqueles que pagam não dispõem de nenhum benefício adicional sobre aqueles que não pagam. O acesso está sempre aberto a todos os que necessitem", garante.

Os livros disponíveis interessam aos mais variados públicos, incidindo sobre temas tão diversos como a literatura infantil e juvenil, a política, a filosofia, a fotografia, a poesia e até o teatro. De acordo com Elisa Ortega, esta é "uma receita para a crise" para permitir que "as pessoas continuem a ler e se aumente a riqueza intelectual".

Clique AQUI para aceder ao site oficial da livraria "Libros Libres" (em espanhol)."

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Milagrário Pessoal

"Iara, jovem linguista portuguesa, faz uma incrível descoberta: alguém, ou alguma coisa, está a subverter a nossa língua, a nível global, de forma insidiosa, porém avassaladora e irremediável. Maravilhada, perplexa e assustada, a jovem procura a ajuda de um professor, um velho anarquista angolano, com um passado sombrio, e os dois partem em busca de uma colecção de misteriosas palavras, que, a acreditar num documento do século XVII, teriam sido roubadas à “língua dos pássaros”. Milagrário Pessoal é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à actualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando.” 

No fim, nem tudo é como parece ser… 

Uma das coisas que mais gostei neste livro, tal como noutros que já li do José Eduardo Agualusa, é ser embalado pelas palavras. Agualusa tem a arte de fazer magia com as palavras, levando-nos a territórios inesperados e que, recorrentemente, deixam um sorriso nos lábios. 

Por exemplo: 

“Me permita que lhe apresente Plácido Domingo! Este aqui não sabe cantar, não. Ainda assim eu o acho mais legítimo que o tenor. Ele é tão plácido e tão domingo que sempre que nos visita parece que o tempo abranda. A gente se esquece das horas.” 

“Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos.” 

“O que é a pátria?, perguntou. A voz era cálida e melodiosa como a de um hipnotizador. Uma pátria pode ser um cheiro. Um buquê de cheiros. Pitangas, terra molhada, o capim macerado. 
Ou um verso, acrescentou Alexandre Anhanguera, um simples verso. Há versos onde cabe inteira a minha pátria.” 

“Também eu cresci dividido entre a sala de estar e o quintal. Dividido? Escrevi dividido? Perdão, por vezes distraio-me e erro um pouco. Permitam-me que corrija: cresci acrescentado entre a sala de estar e o quintal.” 

“Difícil é um homem encontrar uma mulher diante da qual todas as restantes pareçam uma redundância.” 

Ao longo deste pequeno romance, vamos mudando de registo linguístico. Ora estamos no português de Portugal, ora vamos ao Brasil, ora estamos em Angola. Estas mudanças nas palavras e nas frases são um exercício muito enriquecedor e curioso. 

Adquiri este livro na feira do livro deste ano, onde tive oportunidade de pedir um autógrafo ao José Eduardo Agualusa. Um homem de uma simplicidade e simpatia assinaláveis.
Podem ler uma entrevista ao autor a propósito deste livro no Porta-livros.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Sputnik, meu amor

É o primeiro livro que leio do aclamado autor japonês Haruki Murakami... O que dizer? 
Confesso que há qualquer coisa que me deixa indeciso na forma de falar deste livro. 

Em traços gerais, é a história de um ou vários amores não correspondidos. 
Sumire é uma jovem que sonha ser escritora. K, um professor primário, é o seu confidente, com quem tem longas e estranhas conversas, às horas mais inusitadas da madrugada. Num casamento, Sumire conhece Miu, mulher de meia-idade por quem se apaixona e de quem vai ser secretária. A relação entre estas duas mulheres é estranha, pois nunca há uma assunção enquanto tal. Numa viagem pela Europa, em negócios, estas duas mulheres vão parar à Grécia, onde Sumire desaparece misteriosamente. Para ajudar na procura, Miu chama K… 
Um ponto que ressalta neste livro é a dificuldade em estabelecer relações com o outro. Cada um dos elementos deste triângulo vive num ambiente de solidão, que não é anulado pelo contacto que vão estabelecendo entre si. Há apenas contacto, sem ligações profundas. Essa dificuldade/dor perpassa ao longo das quase 200 páginas deste livro. A solidão marca cada página, cada diálogo, cada interacção entre as personagens. Há uma barreira invisível que limita essa aproximação com o estabelecimento de relações significativas. Há qualquer coisa que falta. 
Não por acaso, Sputnik significa companheiro de viagem, em russo.

Sobre Murakami? 
Talvez tenha a ver com a edição que li (da Biblioteca Sábado), em que as frases são demasiado correntes (vulgares?) e contém vários erros de português, mas é um autor que não me convenceu por completo. No entanto, tendo em conta muitas opiniões que li e ouvi, estou curioso em ler “Kafka à beira-mar”.

sábado, 8 de setembro de 2012

A Queda dos Gigantes

Com este livro, Ken Follet dá início à trilogia O Século, e apresenta-nos a história de cinco famílias que se cruzam entre si, e que  coincidem com factos históricos do início do século XX. 
Com início em 1911, e estendendo-se até 1924, este longo romance dá-nos um fresco sobre a história europeia e mundial. Atravessa vários cenários, desde o País de Gales até os corredores do poder inglês, passando pelas trincheiras da I Guerra Mundial, pelo movimento sufragista feminino, pela revolução soviética... 
Ao longo de todo o livro é bem claro o confronto entre as várias classes, poderes e interesses que se digladiaram no confronto bélico. 
Mas há mais além do registo histórico: há os amores proibidos, há as relações de conflito entre pais e filhos, há a pobreza, há a força do religioso, há a ebulição do socialismo. 
À volta de cinco famílias (americana, alemã, inglesa, russa e galesa), Ken Follett constrói um romance histórico bastante plausível. Claro que há elementos que parecem estar a ser vistos muito com o olhar do início do século XXI, e que são estranhos quando contextualizados no início do século XX, mas não são demasiado perturbadores para a narrativa – pelo menos para mim, que prefiro ver as grandes tendências da História do que deter-me em pormenores. 
A proximidade que os membros destas cinco famílias acabam por ter é, simultaneamente, estranha para a época e enriquecedora pelo claro confronto de posições que representa. O quadro destas famílias acaba por ser o seguinte: a elite europeia (famílias inglesa e alemã), o povo (famílias galesa e russa), o corrupto (família americana... que no fundo é uma família russa que emigrou para os EUA). 
Descendo do patamar político, é interessante ver o papel que cabe às mulheres naquele tempo e naquela sociedade. E a força que tiveram (exagerada no livro?) para conseguir o voto feminino. 

Em resumo, foi um livro que gostei muito de ler, apesar de lido em duas “prestações”, o que fez com que levasse mais de um ano a lê-lo. Um livro com mais de 900 páginas não permite uma leitura rápida em termos logísticos. 

O livro seguinte desta trilogia já está encomendado: O Inverno do Mundo. 
O primeiro livro da trilogia já deixou algumas pistas pelo caminho que irão ter destaque no livro II: o ódio aos judeus por parte da elite alemã começa a aflorar; o "desvio" da revolução soviética face à promessa inicial; a emergência de personagens como Churchill.... 
Acho que vou gostar de ler a continuação.

domingo, 29 de julho de 2012

Outliers

Foi através de um blogue sobre livros que cheguei a este livro: Outliers, de Malcolm Gladwell. 
A forma apaixonante como estava apresentado fez com que o comprasse na feira do livro. E valeu a pena! 
Malcolm Gladwell, de uma forma simples, convincente e sedutora, apresenta os motivos porque muitos têm sucesso e outros não. Mas não se pense que esta explicação é um tratado maçador de sociologia. Trata-se, isso sim, de um conjunto de casos concretos, muitos conhecidos de todos nós, que são a base para a tese apresentada pelo autor. Frequentemente todos atribuímos o sucesso à personalidade rara de quem tem sucesso. Mas há muito mais além disso. 
Antes de mais, há a oportunidade. Quem tem sucesso, alcança-o por ter tido uma oportunidade. E esta oportunidade, muitas vezes, é fruto de circunstâncias alheias à pessoa. Os Beatles, Bill Gates, bons jogadores de futebol, a que devem o seu sucesso? 
Há a circunstância das 10 mil horas de treino; há o facto de se ter nascido num determinado mês do ano; há a contingência de ter tido quem pudesse oferecer um computador numa dada época; há o ser judeu; há o ser especializado numa área que, de repente, se torna fulcral… “Dispõem de uma oportunidade que não mereceram nem conquistaram. E essa oportunidade desempenhou um papel crucial no sucesso deles.” 
Além de vidas mais ou menos famosas, Gladwell foca situações de pessoas comuns que conseguiram. E outras que, apesar de todos os esforços, não chegaram lá. Por exemplo, famílias cujos pais foram apanhados pela crise do início do séc. XX, e não conseguiram evoluir. Mas cujos filhos, por terem nascido alguns anos depois, apanharam a onda do crescimento económico que lhes permitiu singrar. “O sucesso não é um fenómeno fortuito. Emerge de um conjunto previsível e poderoso de circunstâncias e oportunidades”, que uns tiveram e outros não. E uma variável para este fatalismo é apenas o ano de nascimento. Além das oportunidades, Gladwell escreve sobre a importância do legado. E nesta parte do livro disseca o motivo de haver países com mais acidentes de aviação que outros, países com mais predisposição para a matemática que outros… Nada é por acaso. 

Nesta segunda parte, o autor alonga-se, por exemplo, nos motivos porque estudantes do mesmo ano têm resultados tão díspares. Terá a ver com a proveniência social? Com o tempo de estudo? Com a duração do ano lectivo? Achei esta parte muito interessante, atendendo aos resultados que Portugal costuma apresentar nestas matérias. E, olhando para algumas medidas recentes do ministro Nuno Crato, percebe-se perfeitamente onde quer chegar.


Realço algumas das frases que ajudam a perceber o sentido das teses de Gladwell:
- "A prática não é o que se faz quando se é bom. É o que se faz para nos tornarmos bons."
- "O sentido de possibilidade tão necessário não vem só de dentro de nós ou dos nossos pais. Vem do nosso tempo: das oportunidades particulares que o nosso lugar particular na história nos oferece."


Se folheado o livro parece assustador, com tabelas, listas e gráficos, não o é de facto. É um livro muito útil, curioso, empolgante, questionador. É daqueles em que se aprende mesmo alguma coisa.


Aproveitando o que li e aprendi neste livro, e olhando para alguns factos da minha vida, consigo encaixar o puzzle que me permitiu estar onde estou e ser quem sou hoje. Situações aparentemente sem importância, mas que funcionaram como agulhas no percurso seguido, tal como num caminho-de-ferro. Se me debruçar com mais atenção, certamente irei encontrar muitos pontos que se enquadram naquilo que Malcolm Gladwell chama de "oportunidade" e de "legado".


Esta eu não sabia:"porque são redondas as tampas dos poços?"
"A resposta é que uma tampa não pode cair pelo buraco, por mais que se tente fazê-la passar. Uma tampa rectangular podia cair, bastaria pô-la em posição vertical ou oblíqua."
Vá, já podem concorrer à Microsoft...

terça-feira, 24 de julho de 2012

O Mago

Esta é mais uma história sublime, sobre uma civilização grandiosa. Wilbur Smith traz de volta a Taita, no papel do Mago, que conhece as tradições dos antigos Deuses melhor que ninguém, mestre da magia e do sobrenatural.
É mais uma vez chamado a proteger aqueles que lhe são mais queridos, o trono e o reino do Egipto, contra as forças do mal que ameaçam destruir o príncipe Nefer, neto da rainha Lostris.
Depois de O Deus do Rio, O Sétimo Papiro e O Mago, a saga continua e acaba com A 11ª Praga.
É realmente uma pena que este seja o último da coleção…mas de uma coisa eu estou certa, vou ADORAR este tanto quanto os outros!!