quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

A Pedra de Luz Vol. III - Paneb, o Ardente






Seti sucede a Merenptah, mas quem sabe se o novo Faraó desejará continuar a obra do pai e proteger por sua vez esta pequena aldeia misteriosa cujo futuro parece ameaçado?

Passado o período de luto, Seti é coroado Rei do Alto e Baixo Egipto e novo Senhor Supremo do Lugar de Verdade, rejeitando o filho ao decidir não associá-lo ao trono. Por sua vez, Amenmés decide reinar em Tebas, enquanto decide se avança ou não, em direção a Per-Ramsés, a capital, lançando o Egipto numa guerra civil. Mas nenhum deles quer ser o agressor e atrair para si a maldição dos Deuses.
Ressentido ao saber que a Rainha Tausert espera um filho, Amenmés resolve autoproclamar-se Faraó, com a aprovação dos Sacerdotes de Karnak, emitindo um decreto que faz correr pelo reino. Manda, em seguida, suspender os trabalhos no túmulo de Seti, pondo à prova a lealdade de Néfer e de todos na aldeia. Tudo se resolve a favor deste, instigando ainda mais o ódio que Méhi sente contra o Lugar de Verdade.

Na capital, Seti não reage. O Rei passa os dias junto do filho recém-nascido, angustiado com a sua saúde. É Bai, o chanceler do Rei, quem toma as rédeas do Estado e prepara uma ofensiva para destronar Amenmés. Contudo, esta não avança por Seti ter receio de ficar submetido à influência de Seth que lhe deu o nome, tal é a dor que sente pelo filho não ter resistido. Faz contudo um único pedido à Rainha: que o filho seja inumado numa Morada de Eternidade no Vale dos Reis. Tausert parte de imediato para Tebas, sem escolta, para satisfazer o desejo do Rei. Consegue, com a ajuda do mestre-de-obras, convencer Amenmés e levar avante as suas intenções e ainda sair ilesa de Tebas, apesar do ódio que este sente por ela.

Na aldeia, ainda que os dias sejam conturbados, o nosso protagonista é convidado a apresentar a sua obra-prima, à semelhança de outros antes dele. Revelados os segredos da profissão e depois de ter decorado um túmulo real, é chegada a hora de Paneb descobrir a matéria-primordial. Decide que só poderá fazê-lo através da pintura pelo que começa a decorar a Morada de Eternidade de Néfer, o seu pai adotivo.
Apresenta, aquela que crê ser a sua obra-prima, deixando a todos mudos de admiração. Esta é aceite e animada pela Pedra de Luz, sem a qual não teria qualquer significado. Paneb abre finalmente os olhos e o coração, convidado a conhecer profundamente os mistérios sagrados que irá replicar nas suas novas criações.

No palácio, a saúde de Amenmés declina e este rende-se à evidência de que desperdiçou os melhores anos da sua vida num combate absurdo que não se realizou. Resolve que o melhor será entrar em negociações com o pai, o legítimo faraó e pedir-lhe perdão. Infelizmente o tempo foge-lhe e este acaba por morrer antes de levar avante as suas intenções. Quem não fica nada satisfeito com esta situação é Méhi que vê logrados mais uma vez os seus esforços/desejos secretos para lançar Tebas numa guerra civil e ainda vê reforçada a importância do Lugar de Verdade com a visita oficial de Bai, o chanceler do Rei.
Resolve que está na hora de lançar o derradeiro golpe contra esta pequena aldeia que ele quer ver esmagada e que só poderá levar a cabo com a ajuda do traidor que se esconde no interior da aldeia, oculto nas sombras e que ninguém conseguiu ainda identificar, mas que quer a qualquer preço roubar a Pedra de Luz...

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos/Fernando Pessoa

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A Pedra de Luz Vol. II - A Mulher Sábia






Depois da morte de Ramsés, o Grande, todos no Lugar de Verdade vivem dias de grande ansiedade. Ninguém sabe se o novo Faraó desejará continuar a obra do pai mantendo sob a sua proteção a aldeia.
Os inimigos de Néfer não deixam, contudo, de ver aqui uma oportunidade para desacreditá-lo aos olhos do faraó, acusando-o atos ilícitos na qualidade de mestre-de-obras. Aproveitando a visita de Merenptah à aldeia, falsas provas são reunidas, pondo à prova a lealdade de todos para com Néfer. Porém qualquer dúvida é dissipada e todos exultam quando este é oficialmente promovido a mestre-de-obras e Merenptah os tranquiliza relativamente ao seu apoio. Todos serenam menos Méhi, que vê frustrada mais uma tentativa para destruir o Lugar de Verdade. Com o logro, o seu cúmplice cai em desgraça e Méhi vê-se obrigado a suprimi-lo, ocupando o seu lugar. Nomeado administrador-principal da margem oeste, vê-se involuntariamente obrigado a velar para que nada falte ao Lugar de Verdade.


Na aldeia, a Mulher Sábia toma Clara como sua assistente ensinando-lhe tudo o que sabe, preparando a passagem do testemunho.
Neste volume, o destaque é dado a Clara, mulher de Néfer, O Silencioso que ascende a Mulher Sábia, tornando-se mãe sagrada da confraria.
Juntos terão de manter a calma na confraria quando aquele que se move nas sombras e dissimulado danifica as ferramentas, apesar de rigorosamente guardadas e, aliando-se a Méhi, a troco de uma pequena fortuna (contrariando os ensinamentos de Maet que jurou respeitar quando entrou para a confraria), tudo faz para deixar a Néfer desprotegido, logo vulnerável.

Também Paneb, O Ardente merece algum destaque. Néfer e Clara adotam-no como filho e cumprindo uma promessa que lhe fez há muitos anos, Néfer conduz Paneb até Mênfis para lhe confiar o segredo da construção das pirâmides. Enquanto estão na cidade, Merenptah reúne em Per-Ramsés os seus generais para discutirem estratégias de guerra para afastarem uma coligação de tropas inimigas que parece ameaçar as fronteiras do reino. Merenptah sai vitorioso e todos respiram de alívio na capital das Duas Terras.

Chegados ao final deste volume conhecemos a Seti, filho de Merenptah e a esposa Tausert e, por sua vez a Amenmés, o filho que vive na sombra do pai e não esconde o ódio que sente por ambos, mas principalmente pelo pai por ter tomado uma segunda esposa. Não esconde também o desejo de reinar, apesar de saber que o pai será o próximo na linha de sucessão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Dizem que vem uma vaga de frio no próximo fim-de-semana.
Tempo perfeito para ficar em casa a ler um bom livro.
Leituras aconchegantes para todos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A Pedra de Luz Vol. I - Néfer, o Silencioso





O romance começa nos últimos anos do reinado de Ramsés o Grande.
Jacq começa por apresentar-nos a Ardente, um jovem colosso de 16 anos, cuja única ambição é passar o resto dos seus dias a desenhar/pintar. Incompreendido pela família, decide abandonar o lar para se apresentar no único lugar capaz de satisfazer os seus desejos - o Lugar de Verdade - uma aldeia misteriosa no deserto que abriga um pequeno grupo de artesãos encarregados da construção dos magníficos túmulos dos faraós.

De seguida, e através de Ardente, conhecemos a Silencioso, que vagueia sem rumo numa busca pessoal, esperando ouvir o apelo para poder apresentar-se junto do tribunal de admissão da confraria do Lugar de Verdade. E, quase em simultâneo, ambos pedem a sua admissão. Silencioso apresenta-se com Clara, que toma por esposa, sendo imediatamente aceite, enquanto Ardente é posto à prova antes dos membros do tribunal concordarem em aceitá-lo como membro da confraria. Nasce entre eles uma amizade sólida e inabalável.

Conhecemos também a Méhi, um oficial tebano, que vive obcecado em descobrir os segredos do Lugar de Verdade e em apoderar-se da Pedra de Luz. Vemo-lo capaz, junto com a esposa Sérketa, que torna sua cúmplice, das mais variadas maquinações, aniquilando todos aqueles que se revelem um obstáculo às suas pretensões.

Acompanhamos o crescimento pessoal de Néfer, o Silencioso enquanto artesão e escultor. E é sem surpresa que todos o aceitam quando este é escolhido para próximo mestre-de-obras.
Ao virarmos a última página, os ventos não trazem bons agouros e todos no Lugar de Verdade ficam inquietos depois da notícia da morte do faraó Ramsés, o Grande.

E em seguida…
A Pedra de Luz Vol. II - A Mulher Sábia

sábado, 7 de janeiro de 2012

Grandes livros inspiram debates

Arranca segunda-feira o ciclo de conferências “Política e pensamento: a voz dos livros”, organizado por Ribeiro e Castro e com a parceria do i, Antena 1 e da livraria Ferin. A ideia é discutir a política de hoje a partir da reflexão sobre os grandes livros que inspiraram o pensamento político e humano.

Os debates têm lugar na livraria Ferin do Chiado, na Rua Nova do Almada, pelas 18h30.

Pedro Lomba
Jurista
O jurista e comentador abre este ciclo de debates que já tem segunda série agendada para arrancar em Setembro. Pedro Lomba vai lançar o debate e a reflexão a partir do “Compêndio da Doutrina Social da Igreja” pelo Conselho Pontifício Justiça e Paz

Álvaro Santos Pereira
Ministro da Economia
A 19 de Janeiro, o ministro da Economia leva o seu próprio livro, “Portugal na Hora da Verdade”, para a conferência em que é convidado. É uma obra escrita quando era docente na Universidade de Vancouver e que fala de como vencer a crise

João Salgueiro
Economista e ex-ministro das Finanças
O ex-ministro das Finanças e do Plano escolheu levar para a conferência onde estará, a 6 de Fevereiro, um livro de 2010, de Jacques Attali: “Estaremos Todos Falidos Dentro de Dez Anos?”

Carlos Magno
Presidente da ERC
O novo presidente da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) vai abrir o debate a partir de um clássico do século XVI, “O Príncipe”, de Maquiavel, uma das obras fundadoras da ciência política moderna

Mário Soares
Ex-presidente da república
A 5 de Março, o ex-Presidente da República é o convidado deste ciclo de debates, a realizar na livraria Ferin do Chiado, e ficou encarregado de levar uma obra, que ainda está por definir, sobre o tema da construção europeia

Carlos Moreno
Ex-juiz do Tribunal de Contas
O uiz jubilado do Tribunal de Contas vai conduzir o debate de 19 de Março e leva consigo o livro que publicou em 2010: “Como o Estado Gasta o Nosso Dinheiro”. O ex-juiz do TC tem sido muito crítico em relação ao estabelecimento das parcerias público-privadas

João Carlos Espada
Professor universitário
O director do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica escolheu “Da Democracia na América”, um livro em que o francês Alexis de Tocqueville analisa a democracia americana, para o debate a que preside no dia 2 de Abril

João Pereira Coutinho
Comentador
A 16 de Abril o dia é do comentador, que vai propor um debate a partir do livro “Reflexões sobre a Revolução em França”, publicado em 1790 pelo filósofo e político inglês Edmund Burke, um dos pais do conservadorismo anglo-saxónico

José Manuel Fernandes
Jornalista
O jornalista e ex-director do “Público” leva “A Ética Católica e o Espírito do Capitalismo”, de Michael Novak, para a conversa de 7 de Maio. Novak defende que “a ética católica pode corrigir e alargar o espírito do capitalismo” tal como foi definido no clássico de Max Weber

D. Manuel Clemente
Bispo do Porto
O bispo do Porto escolheu “Os Descobridores”, de Daniel Boorstin. O livro faz parte de uma trilogia (“Os Criadores” e “Os Pensadores” são os outros dois) e descreve toda a história do conhecimento humano. A conferência é a 21 de Maio

Jaime Nogueira Pinto
Professor universitário
O investigador estará na livraria Ferin a 4 de Junho a lançar o debate sobre “O Fim da História e o Último Homem”, de Francis Fukuyama, uma obra que faz a apologia da democracia liberal por oposição ao socialismo, após a queda do bloco soviético

Miguel Morgado
Assessor político do primeiro-ministro
A 25 de Junho, este académico, especialista em ciência política e assessor de Passos Coelho leva para o debate “A Utopia”, de Thomas More, uma obra do século XVI que projectou a ideia de uma sociedade perfeita 

Viriato Soromenho Marques
Professor catedrático
A 2 de Julho, Soromenho Marques leva “O Federalista”, de Alexander Hamilton, James Madison e John Jay, três founding fathers dos EUA que reuniram numa obra artigos saídos das reuniões de Filadélfia, para elaborar a Constituição americana.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O Deus do Rio






O Deus do Rio é o primeiro livro de uma coleção apaixonante de romances «egípcios» de Wilbur Smith.

Fui, página a página, reconhecendo as personagens de uma mini-série que passou na televisão há alguns anos. Fui tentar apurar há quantos e descobri que é de 1999 e que se baseia no segundo livro da coleção: O 7º Papiro.

Em O Deus do Rio, conhecemos a corte do Faraó Mamose, participamos dos festejos, adoramos os seus deuses e percebemos que este não passa de um símbolo da decadência de um reino que já viveu em tempos dias gloriosos. Os seus súbditos ditos leais vivem com as mãos nos bolsos do Faraó, que não pensa em outra coisa que não seja acumular riqueza no seu túmulo para levar além da eternidade, enquanto o seu povo é obrigado a viver na mais perfeita miséria.

Taita - um escravo de superior inteligência, escreve o destino majestoso da sua jovem ama Lostris e do seu amigo Tanus enquanto a providência conspira para os afastar da sua bela Tebas, a cidade das cem portas. Os horrores de uma batalha que promete ser longa obriga-os a dar
início a uma longa e arriscada viagem para restaurar a majestade do Faraó dos Faraós nas resplandecentes margens do Nilo. Mais desenvolvimentos em O 7º Papiro...mal posso esperar!

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O Corpo Estranho







Nem sei por onde começar tamanha é a desilusão com o livro e com o seu autor.
Quando ouvimos falar em Robin Cook, invariavelmente ouvimos dizer que ele é o pai do thriller médico e dão-nos conta do seu sucesso ao referirem a sua vasta obra publicada. Contra ESTES factos não há argumentos.
Contudo, confesso que fiquei desiludida ao ler aquele que será o seu 25º título, deveria ter começado pelo primeiro? Terá sido esse o meu erro?

Mas passemos à história:
Jennifer Hernandez, a nossa protagonista, é uma estudante de medicina no seu último ano na UCLA. Enquanto fazia tempo na sala de espera do hospital, olha distraidamente para a TV e fica a saber através da CNN que a sua avó, Maria Hernandez, morreu após cirurgia num hospital na Índia. Chocada, parte de imediato para Nova Deli, devastada pela notícia. Dirige-se ao hospital onde tudo aconteceu e imediatamente é pressionada para tomar uma decisão: cremar ou embalsamar. Jennifer não quer tomar nenhuma decisão precipitada e tenta ganhar tempo enquanto procura respostas e recuperar do jet-lag. Nessa mesma noite, sem conseguir dormir, liga a TV para procurar pôr-se a par de possíveis desenvolvimentos na CNN sobre a história da avó. Fica a saber de mais um caso de morte e começa a suspeitar de que algo de estranho se passa.

Acorda e lembra-se de procurar o apoio de Laurie, uma amiga de longa data e que por mero acaso ela e o marido são patologistas forenses e ambos trabalham como médicos legistas (coincidência fantástica?!). Imediatamente, Laurie e Jack viajam até à Índia (como se a Índia estivesse logo ali ao virar da esquina), para examinarem o corpo de Maria Hernandez, quando o hospital se recusa terminantemente a efetuar uma autópsia. No dia seguinte, outro hospital regista mais uma morte. Imediatamente Jennifer entra em contacto com as viúvas e pede-lhes para não tomarem qualquer decisão em relação aos corpos, porque aguarda a chegada dos amigos que irão desvendar o dito mistério (que, nós leitores, já conhecemos desde as primeiras páginas do livro!). Jennifer faz entretanto algumas investigações por conta própria, ganhando alguns inimigos que procuram tirá-la do seu caminho.

Os amigos chegam finalmente a Nova Deli e dirigem-se ao Queen Victoria Hospital para uma consulta marcada previamente de Nova Iorque. Após a consulta, colocam o médico a par da razão da sua vinda à Índia e ainda conseguem a sua (preciosa) ajuda para realizarem a autópsia (terminantemente negada pelo hospital onde este trabalha!), como se fosse a coisa mais natural do mundo, e ainda trata de conseguir as instalações perfeitas à sua realização (qual é a probabilidade de isso acontecer na vida real? mais uma coincidência fantástica!). Conseguem em seguida tirar o corpo de Maria Hernandez do hospital e realizar a autópsia. Enquanto isso, Jennifer é raptada pelos conspiradores que querem perceber o que a fez suspeitar das mortes não serem naturais. Enquanto Laurie e Jack tentam chegar até junto dos outros dois corpos (e conseguem com a maior das facilidades), Jennifer consegue evadir-se precisamente com a ajuda da enfermeira que matou a sua avó...!
Os conspiradores são punidos e como num conto de fadas, todos vivem felizes para sempre! E o mais incrível é que tudo acontece no espaço de uma semana...


A conspiração é-nos revelada assim que Jennifer aterra na Índia, não chego a perceber onde está o dito mistério e quanto ao suposto suspense, não chego a perceber de todo! Na minha (modesta) opinião, o livro revela uma TREMENDA FALTA de imaginação, e se não estivéssemos a falar de Robin Cook, diria que o livro fora escrito por um amador neste tipo de enredos...

sábado, 19 de novembro de 2011

A Curva do Rio


“O mundo é o que é; os homens que não são nada, que se permitem tornar-se nada, não têm lugar nele”
É com esta frase que V. S. Naipaul, prémio Nobel da Literatura em 2001, inicia A Curva do Rio, cuja história decorre num país africano sem nome, numa cidade interior, na curva de um rio.
Salim, um jovem filho de indianos, compra uma loja numa cidade do interior desse país africano e pensa que assim terá um bom futuro. Mas num país pós-colonial, com enormes atrasos e sem sociedades desenvolvidas no sentido europeu, o conflito é uma realidade permanente.
A cada linha vemos as relações de dependência entre as pessoas, a escravatura, a pobreza, corrupção. Ao lado disto, temos um poder político omnipresente, primeiramente como esperança, depois como a única realidade dominante. E que a mim fez lembrar Orwell no seu assustador 1984.
Salim não tem grandes relações sociais. Num país africano, ele é indiano e as suas relações mais próximas são com indianos. De entre essas relações destacam-se um casal também comerciante que foi para a cidade, mas que vive de medo. Um casal de aparência social com o qual almoça uma vez por semana.
Além deste casal há Metty, um escravo da sua família que é impingido para ir viver com ele nessa cidade do interior. É muito interessante ver a relação entre ambos ou, indo mais além, seguir a ligação existente entre esses escravos e os seus senhorios. Em muitas situações é o escravo que acaba por ser o senhor. A relação entre Salim e Metty oscila entre a quase cumplicidade e o parasitismo puro.
Há ainda um amigo de juventude que graças aos estudos consegue ser próximo do presidente. É colocado na Cidade Nova, reencontra Salim, e a partir daqui seguem-se várias peripécias romanescas e as soirées (lembrou-me Os Maias) com pessoas relevantes socialmente. Raymond escreve discursos do Grande Chefe, é seu conselheiro privilegiado. Mas num país em ebulição, rapidamente cai em desgraça.
Em termos gerais, a história decorre num país pós-colonial, inicialmente cheio de esperança no progresso e no futuro. Mas rapidamente há um desmoronamento social, e é dramático ver o que acontece a todas as personagens. Da esperança passam ao descrédito. A violência, a corrupção, as guerras, rapidamente transformam em tragédia qualquer sonho, por mais básico que seja. A esperança depositada num novo poder político, com traços de iluminismo, rapidamente dá lugar a mais um regime totalitário. Os amanhãs que cantam vestidos de violência, tragédia, cegueira social. Tudo sempre com a melhor das intenções.
Aquilo que associamos normalmente a África aparece nesta obra em todo o seu esplendor. A Curva do Rio é um retrato dramático deste continente mergulhado numa permanente instabilidade e sem perspectivas de uma vida normal. 
(Declaração de interesses: sou manifestamente eurocêntrico).
Pelo tipo de personagens e pelos países que vão sendo citados, percebemos que este país sem nome fica próximo do Corno de África, algures entre a Tanzânia e a Somália.


Fora do âmbito da obra, o que me fez mais comichão no céu-da-boca foi o facto de já estar impresso em versão acordo ortográfico. Se esta alteração passa despercebida em quase todo o texto, há no entanto palavras que chocam. Destaco apenas uma palavra que surge inúmeras vezes e que é intragável: receção (em vez de recepção). Ler isto, e tentar articular de viva voz, é uma aberração.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A Filha Pródiga





Mais um livro deste grande contador de histórias.

Mas o que é deveras fascinante em A Filha Pródiga é a forma como Archer reinventa a história das personagens que nos deu a conhecer em Kane & Abel
para nos contar a história da filha deste último – Florentyna Rosnovski. Apesar de recordamos cada um dos episódios, acrescenta a versão de um novo protagonista, têm de concordar que é de mestre!

Em Kane & Abel testemunhamos um duelo de titãs entre dois homens obstinados em se destruírem um ao outro, em A Filha Pródiga, a luta continua com Florentyna, filha de Abel. Dotada de beleza, de uma personalidade única e principalmente de uma vontade férrea ambiciona apenas uma coisa - ascender ao mais alto dos cargos.


Conhecemos Florentyna ainda criança e desde cedo ficamos com a impressão de que está destinada a grandes feitos, isso é certo, e no final de cada capítulo agarramo-nos a cada palavra como se fosse a última e no entanto há ainda muito para contar. É extasiante!
Se não fosse suspeita, diria que de uma singularidade, Archer consegue montar uma história que muitos diriam conhecer e no entanto lemo-la como se fosse a primeira vez!
A prova de que os filhos continuam a saga desta família singular. Recomendo!

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Leituras em greve

Uma das coisas boas de dias como hoje, com greves, é que as longas esperas e demoras dos transportes permitem ler paginas e páginas de livros. 
Hoje, graças a isso, li umas 80 páginas d'A Curva do Rio.

sábado, 5 de novembro de 2011

"O mundo é o que é; os homens que não são nada, que se permitem tornar-se nada, não têm lugar nele."

Começa assim A Curva do Rio, de V. S. Naipaul, cuja leitura estou a iniciar.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

As Serviçais




As Serviçais (The Help), de Kathryn Stockett, fazia parte da minha lista de ‘livros a ler’, uma lista onde registo todos os livros que um dia gostaria de ler. Não fazia ideia do seu sucesso literário ou de que estava para breve a estreia da adaptação cinematográfica.
Como sempre, hesitei entre esperar pelo filme para depois ler o livro ou em começar pelo livro e só depois ver o filme. Acho que aquilo que me levou, desta vez, a começar pelo livro foi o alguém ter dito que a história era hilariante e nos tempos que correm rir não é o melhor mas o único remédio...

Começamos por conhecer Skeeter, que acaba de terminar a faculdade e que regressa a casa para seguir o seu sonho e tornar-se escritora, ainda que tenha de ir contra as convenções da época e os planos da mãe em vê-la com uma aliança no dedo. Através dela, conhecemos Aibileen, a quem pede ajuda e que por sua vez nos apresenta a Minny.Entre elas nasce uma cumplicidade quase imediata, o que leva Skeeter a escrever a história de Aibileen e, depois a de outras criadas que apesar de criarem e amarem as crianças das famílias brancas como se fossem suas, são discriminadas apenas pela cor da sua pele. Estas mulheres são a voz da esperança, da tristeza, do preconceito e da necessidade de mudança.
E, de facto, as suas vidas vão mudar para sempre!
«Talvez não seja demasiado velha para recomeçar, penso, e rio-me e choro ao mesmo tempo. Porque, ainda na noite passada, pensei que já não tinha nada de novo a fazer na minha vida.»

Sobre a segregação racial na América sulista, na década de 60, As Serviçais são um poderoso testemunho de que é possível mudarmos as coisas se tivermos a coragem necessária.
A desfavor só aquilo que se perde na tradução e que inevitavelmente fere o livro nas suas entranhas, é impossível não ficar com a sensação de que falta ali qualquer coisa para determinada frase pulsar de sentido.
Sobre o filme:
A sensação é a mesma do livro, não conseguimos parar a expectativa. No livro, a cada página, o que nos leva a não querer parar de ler, no filme, a cada take, para vermos a adaptação de determinado episódio retratado no livro. Há semelhanças e diferenças, um não é o retrato fiel do outro, o filme retira, enquanto o livro acrescenta, com o filme apenas damos um rosto às personagens que conhecemos intimamente ao longo de cada página. Mas não é o que acontece sempre? De qualquer forma recomendo ambos!

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O Livro do Amanhã


Por sugestão de uma leitora deste cantinho, uma pequena apresentação deste livro:

Tamara Goodwin tem dezasseis anos e vive confortavelmente numa mansão moderna com seis quartos, habituada a ter tudo o que quer quando quer. Mas, quando o pai morre deixando inúmeras dívidas, Tamara e a mãe não têm outra alternativa senão vender tudo e ir viver com parentes para um lugar distante e isolado junto ao castelo de Kilsaney. Para Tamara o choque parece inultrapassável, até que um dia uma biblioteca itinerante chega à vila trazendo consigo um misterioso livro encadernado a couro e fechado com um cadeado dourado… 
Com mais de um milhão de exemplares vendidos em todo o mundo, O Livro do Amanhã é o novo romance da autora de P.S. Eu Amo-te. 

A impressão que o livro causou na Filomena:
"Uma narrativa surpreendente, pela voz de uma adolescente inconformada. Prendeu-me do início ao fim e fez-me voltar à adolescência tal foram as peripécias de Tamara. Uma obra onde os valores da amizade, do amor e da família são os únicos pilares que conseguem erguer as personagens e onde o mistério e a espiritualidade nos cativam até à ultima linha. Num ambiente de magia e suspense vimos desfilar as primeiras experiências de uma adolescente assustada, vibramos com as suas investigações em cenários idílicos e participamos na descoberta de segredos, relembrando-nos que os afetos são a nossa prioridade nesta vida e que o nosso amanhã já foi escrito algures. "

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O Jogo do Anjo







É mais uma vez uma história DE e SOBRE livros. Nas palavras do autor: "de quem os faz, de quem os lê e de quem vive com eles, através deles e até contra eles. É uma história de amor, amizade e, em alguns momentos, sobre o lado obscuro de cada um de nós" e termina dizendo que é sua intenção oferecer ao leitor uma "experiência intensa e convidá-lo ao jogo da literatura".

David Martín, o nosso protagonista, é um jovem escritor que vive em Barcelona na década de 20 e que ambiciona ter o seu nome impresso num pedaço de papel, tornando-se imortal (acho que isso é mesmo aquilo que todos os nossos personagens pretendem - viver para além de um pedaço de papel), capaz de vender até a alma para o conseguir. Seguimos de perto as suas tentativas, enquanto deambulamos por cenários familiares, como a pequena livraria Sempere e Filhos e o mágico Cemitério dos Livros Esquecidos, de onde, mais uma vez, o nosso protagonista retira um livro, além de esquecido, maldito.
É mais uma vez uma história que mistura o amor pelos livros, a paixão e a amizade. Temos também algum mistério como em A Sombra do Vento, confesso que vi algumas semelhanças, não só entre personagens, mas no preço que pagaram para chegar à verdade.

É também um livro que não se explica, compreende ou que se justifique. Não vou colocar aqui os pormenores da história, não quero retirar ao leitor o prazer de ver-se enredado nos labirintos de uma intriga sinuosa e ao mesmo tempo perigosa. A história flui veloz e vertiginosamente, com uma precisão narrativa que nos deixa exaustos porque simplesmente não conseguimos parar de ler. Quem gostou de A Sombra do Vento, vai certamente adorar esta nova lufada de mistério, entrar de novo no santuário dos livros esquecidos onde "cada livro, cada volume que vês, tem alma. A alma de quem o escreveu, e a alma dos que o leram e viveram e sonharam com ele. Cada vez que um livro muda de mãos, cada vez que alguém desliza o olhar sobre as suas páginas, o seu espírito cresce e torna-se mais forte. Neste lugar, os livros de quem já ninguém se lembra, os livros que se perderam no tempo, vivem para sempre, esperando chegar às mãos de um novo leitor, de um novo espírito..." eu acrescentaria: e de colocar aí toda a sua magia.