terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

O Príncipe e o Pobre



Inglaterra, século XVI.
Tom Canty, um rapaz pobre, serve-se da sua imaginação para escapar às agruras da vida e, entre brincadeiras, cria para si uma vida palaciana cheia de riquezas, alimentada pelas histórias que lê nos livros que o bom padre Andrew lhe empresta.


Chega o dia em que um desses sonhos é mais forte do que ele e resolve sair de casa (se é que se pode chamar de casa a um quarto miserável onde vive com a mãe, o pai, a avó e as duas irmãs) decidido a conhecer um castelo e um príncipe de verdade.
Percorre a cidade até chegar a um estranho caminho que o leva até ao portão de um castelo, mas ao chegar mais perto é brutalmente barrado pelo guarda. Eduardo, o príncipe de Gales, que assiste a tudo, vem em seu auxílio e convida-o a entrar nos seus aposentos. Trocam confidências e o príncipe confessa-lhe que também ele sonha em brincar ao ar livre, longe dos seus deveres protocolares.
Descobrem que são ambos bastante parecidos e, inocentemente, resolvem trocar de roupa e é quando Edward sai do palácio, com os trapos de Tom, decidido a dar uma reprimenda no guarda que acaba por o escorraçar, não o reconhecendo.


E assim começa a aventura de um na pele do outro. Mark Twain serve-se de um e outro para criticar a sociedade da época, tecendo críticas mordazes à vida luxuosa da realeza e da nobreza em geral através de Tom pelo modo como, exageradamente, se vê rodeado de criados que se substituem a ele em todas as suas tarefas diárias, desde o acordar ao recolher (chega a ser cansativo ler a descrição que o autor faz de um gesto corriqueiro, levado ao exagero, como vestir-se).
Enquanto isso, o verdadeiro príncipe, e mais tarde rei Eduardo VI, é arrastado pela multidão, a quem tenta convencer de que é o príncipe de Inglaterra, não conseguindo mais do que gargalhadas e maus tratos. Vestido de andrajos, deambula pelas ruas de Londres, tido como um pedinte, testemunhando actos de crueldade e de violência permitidos e até decretados pelas leis em vigor, ficando genuinamente horrorizado por alguns e ainda com a falta de bondade de uma sociedade que se diz cristã.
Os acontecimentos precipitam-se, bem como o dia da coroação, onde Tom está prestes a ser coroado rei e a reinar de pleno direito. O momento é dramático, mas não deixa de ser comovente o ajuste de contas entre as nossas personagens, estando bem patentes os traços que caracterizam as obras de Mark Twain: a camaradagem e a amizade.

Depois deste curto período entre os clássicos, tenho um pedido a fazer a quem escreve e publica livros: regressem ao que é simples, esqueçam os arrebiques, as figuras de estilo, escrevam como quem fala cativando quem lê e vão perceber a beleza perdida da leitura que flui livremente. Está na hora! Quanto a mim, percebi finalmente…

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Todas as Palavras de Amor

Das leituras da Filomena, esta sugestão:

"Num discurso recheado de sinceridade Alice expressa o que lhe vai na alma à medida que nos cativa...Do outro lado, o emissor, por engano... é padre. A cada chegada das missivas de Alice as dúvidas de António vão surgindo e o lugar do Amor começa a fazer ninho. Um exemplo de que nunca é tarde para recomeçarmos com afectos e sonhos que haviam ficado por realizar. Lindo, profundo e imprescindível a todas as leitoras que gostam de um bom romance. Cartas intrigantes que conseguem manter-nos acordadas uma noite... porque não se consegue deixar as palavras de Amor num envelope."

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Passatempo Paleta de Letras

A Paleta de Letras enviou-nos um mail a divulgar o passatempo 12 meses, 12 livros.
Todos os meses de 2013 há um livro para oferecer. Podem ver a lista de livros neste link.
Boas leituras. Boas participações.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

As Minas de Salomão



De volta aos clássicos, começo por apresentar a D. José da Silveira - português - e depois os seus descendentes que, além do nome, não herdaram mais do que o infortúnio de se terem aventurado em busca das famosas riquezas das minas do rei Salomão, não conseguindo outra riqueza além daquelas que povoavam os seus pensamentos, sugando-lhes a vida.
O último Silveira a tentar conseguiu, no entanto, antes de morrer, passar o seu legado, um segredo guardado de geração em geração, nada mais que um rabisco em forma de mapa, num farrapo gasto pelo tempo.

E aqui apresento-vos o invulgar Quartelmar, um caçador e aventureiro q.b., que tendo na sua posse o dito mapa, nunca acreditou na sua autenticidade para empreender uma busca por sua conta o que o tornaria rico. Mas tudo isto estaria prestes a mudar quando conhece o Barão Curtis, um aristocrata inglês e o seu amigo, o Capitão John, que lhe pedem ajuda para localizarem o irmão do Barão, que terá partido em busca das minas, assim dizem os relatos de quem o viu pela última vez.
Quartelmar aceita liderar a expedição em troca de parte do tesouro e, no caso de não voltar vivo, uma pensão para o filho. Firmado o acordo, prepara-se a viagem e com eles parte também Umbopa, um enigmático nativo que nada quer a não ser fazer parte do grupo como carregador.

Atravessar o deserto não se revela tarefa fácil e são muitos os momentos em que perdem a fé e questionam se o mapa será verdadeiro, mas a vontade é férrea e conseguem chegar ao oásis desenhado no mapa e depois ao sopé da cordilheira onde, numa caverna, encontram o cadáver de José Silvestre, o explorador português do séc. XVI que havia desenhado o mapa.
Animados por esta certeza, continuam a marcha e chegam a um vale deslumbrante onde são surpreendidos pelos Cacuanas. Fazendo-se passar por deuses conseguem evitar a morte certa e ser levados à presença do rei Tuala.  Através de Infandós ficam a conhecer a história da sua ascensão do trono, de como assassinara o seu próprio irmão Imotu para subir ao poder, condenando ao exílio o legítimo herdeiro - Ignosi. E, sem surpresa, ficamos a saber que Umbopa é afinal o herdeiro desaparecido que poderá livrá-los da tirania levada a cabo pelo usurpador. Desencadeia-se uma rebelião para derrubar Tuala que cai morto num duelo, às mãos do Barão.

Restituído o trono, os nossos amigos partem finalmente em busca das «pedras que reluzem» conduzidos pela repulsiva Gagula, a única capaz de levá-los ao tesouro mas que, traindo-os, os deixa presos dentro da montanha. Mas como já vem sendo hábito ao longo da história, a providência tem outros planos e conseguem descobrir uma saída e regressar de novo a Lu e ainda encontrar o irmão do Barão que estava preso havia dois anos num oásis, incapaz de se deslocar. A despedida é sentida e embora não tendo conseguido trazer as riquezas imensas de Salomão, voltam todos para Inglaterra com o suficiente para serem considerados homens ricos.

Uma história fantástica, de uma simplicidade marcante!

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Desafio Literário - a outra metade


1. Principais manias como leitor?
Devo ter algumas, se é que se podem chamar manias:
- Colar um post it na primeira página do livro onde aponto as páginas onde li uma frase marcante, uma palavra que preciso descobrir no dicionário, uma personagem/lugar de que preciso lembrar-me, etc…
- Forrar o livro para não estragar a capa;
- Não gosto de dobrar o canto das páginas, sublinhar, pintar ou de qualquer outra forma marcar o interior do livro;
- Se por volta da página 50 ainda não estiver completamente rendida à história dificilmente vou continuar a ler.

2. Lugar a visitar depois de teres lido o livro?
Muitos e todos eles situados no Egipto. Mas pelo andar das coisas, vou continuar a viajar através da minha imaginação e dos livros que vou colecionando sobre o tema.


3. Personagem literária marcante?
Toda a protagonista Mulher e que, contra tudo e todos, tome nas mãos as rédeas do seu destino, desafiando regras e costumes estabelecidos.


4. Filme que não desiludiu depois de teres lido o livro?
Revolutionary Road (2008). O único filme que vi até hoje onde reconheço cada página do livro.


5. Autor nunca lido mas tens vontade de ler?
Arturo Pérez-Reverte ou talvez Erich Maria Remarque, é difícil escolher apenas um.


6. Livro que não conseguiste acabar?
Já lhes perdi a conta. Acredito que quando escolhemos um livro e o retiramos da prateleira, é ELE que escolhe o momento e não o contrário. E por isso, se começo e não acabo tantos livros, é porque simplesmente não era o momento…


7. Tema para um livro da tua autoria?
Encontros e desencontros, palavras soltas que se juntam e quem sabe se não nasce um livro.


8. Citação retirada de um livro?
Passei em revista todos os livros aqui publicados e percebi que não tenho por hábito deixar citações. Assim deixo-vos com a frase:

"Because it's magic. Magic has to be believed. It's the only way it's real."
 e com um livro de onde poderia retirar várias citações.

9. Um livro inspirador?
 O Livro Mágico. Mudou a minha vida, literalmente!


10. Último livro que compraste por impulso?
A Mão Esquerda das Trevas.
Vi um filme em que o protagonista era fã de livros de ficção científica (eu não sou e nem me lembro de alguma vez ter lido algo dentro do género) e menciona este entre outros. A forma como falou do livro no filme fez com que ficasse curiosa, fui ver se tinha tradução entre nós e comprei.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Ernestina




Não há nada de mais sublime do que ler um livro que nos fascina em todos os sentidos.

E não que seja um êxito de prateleira, que não é.
E, pelo que sei, também não esteve no top de vendas da maior parte das livrarias quando foi editado.
Do autor, o nome também não está rotulado de best-seller comercial entre nós.
Ao que consta, os seus livros vendem – na Holanda, onde tem sido reconhecido por críticos e leitores em geral.
Por cá, pese embora o empenho da Quetzal em publicar aquele que pode ser considerado uma descoberta literária para quem gosta do género, continua a ser, para muitos, um perfeito desconhecido.

J. Rentes de Carvalho conta-nos a sua história através de várias histórias ou não fosse ele um contador de histórias nato. As páginas não são mais do que as memórias de uma infância que se divide por Vila Nova de Gaia onde nasceu, o Porto onde estudou e Estevais onde passava as férias do mês de Agosto (gosto especialmente destes episódios, por serem tão reais).

Mas Ernestina é mais do que um romance autobiográfico, é também o nome da mãe do autor e sobre ela J. Rentes de Carvalho viria a dizer: «Mãe de um só filho, a sua vida, que foi uma de tristeza, amargura e terrível solidão, dava um livro. Escrevi-lho eu. E a sua morte quebra o último elo carnal que me ligava à terra onde nasci. Felizmente são ainda muitos os laços que a ela me prendem.» 
Penso que seja a simplicidade, a riqueza da linguagem típica e quase esquecida no tempo e que na boca de um transmontano me faz recordar tudo aquilo que parecia esquecido por ter caído em desuso. Quase que estou tentada a deixar aqui um rol de palavras que ninguém usa por aqui mas que ainda andam na boca de todos em Rapoula do Côa. Revivi através dele episódios da minha própria infância, onde a rudeza dos costumes moldavam as pessoas à boa maneira portuguesa. 
Em entrevista, J. Rentes de Carvalho diz escrever com o sentimento de pertença, ao povo, à língua e à terra em que nasceu, e posso acrescentar que isso está marcadamente à vista em todas as páginas que compõem o livro. Segundo ele, «(…) é uma questão de transmitir pela escrita uma certa franqueza interior, sem lindezas nem arrebiques, e chamando às coisas pelo seu nome, o que no contexto da literatura portuguesa contemporânea é capaz de parecer exótico.»
Pena este autor não ter o merecido destaque em Portugal.
Para finalizar, não resisto em deixar-vos aqui um ‘à parte’ - quando lhe perguntam em entrevista: E de Trás-os-Montes, que ventos lhe chegam? E ele responde que finalmente o saneamento básico chegou à sua aldeia (Estevais de Mogadouro). «O benefício, prometido há mais de quinze anos, avança agora à velocidade clássica das obras de Santa Engrácia, de maneira que não será tão cedo que dispensaremos o penico.
Mas as pessoas recomendam-me que não seja azedo e faça como elas fazem, que me habitue a aguentar e a esperar.» 
…à boa maneira portuguesa… mais uma vez!

domingo, 6 de janeiro de 2013

Livro

Este é a primeira obra que leio de José Luís Peixoto. 
Centra-se em Ilídio, um rapazinho que é abandonado pela mãe junto a um fontanário, e acompanha-o até à idade adulta, quando emigra para França. À procura da sua sorte, e atrás da Adelaide, a sua paixão correspondida. 
Relata as vivências de várias pessoas num ambiente rural, pequeno, provavelmente no Alentejo, e, também, a vida de quem emigrou para França. Num misto de campo e cidade, mas em que o padrão das personagens é semelhante: oriundas de um meio em que todos se conhecem, e em que todos sabem tudo de todos. E é neste ambiente que é possível criar situações que nos captam a atenção. 
Dividido em duas partes, os primeiros dois terços relatam as vivências acima. Depois há um corte abrupto, e surge-nos o último terço do livro, que me pareceu um momento de divagação do autor, entretecido com a continuação da parte anterior. Confuso para mim. 
O que me pareceu interessante nesta obra foi a utilização de palavras manifestamente populares, mas caídas em desuso ou para mim desconhecida. Enriquece o texto, deixa a curiosidade pelo significado, e fica um sorriso na cara. 
Por exemplo, “o touro estafonou-o todo”, ou “Vem. Estou pronta, meu amor, meu grande amor. Entra dentro de mim, estafona-me toda. Estou limpa e pronta.” Além desta, há muitas outras palavras estranhas que conferem graça ao longo de todo o romance. 
Ou a utilização de imagens como “quando a Adelaide saiu de trás do muro do chafariz, já uma vírgula iniciara o percurso em direcção ao seu útero.” 

Não tendo, na minha opinião, uma escrita luminosa, José Luís Peixoto consegue relatar bem uma história. E realço o termo “relato”, uma vez que parece que é disso que se trata. Os diálogos são praticamente inexistentes (se juntarmos todos os momentos de diálogo deste romance, não devem encher duas páginas), o que confirma que é possível escrever um livro ou romance sem diálogos. 
Quanto à escrita neste romance, achei notável, logo no início, o autor escrever várias páginas em que pôs o leitor a par de várias informações sem que a personagem Ilídio tivesse saído de junto do fontanário. É como se fosse projectado um vídeo, que pára num determinado momento, e surge uma voz off para nos contar outra coisa, e depois é retomada o movimento da imagem. Fantástico! 

Ler um novo autor é aprender uma nova linguagem. Peixoto, com este Livro, não me seduziu. Pode ser que no futuro faça uma nova tentativa.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Resoluções para 2013

"Em 2012 consegui ler ou reler Eça, Camilo, Jorge Amado, Virginia Woolf, William Faulkner, Ford Madox Ford, Dylan Thomas, Graham Greene, Julio Cortázar, Joseph Roth, Nelson Rodrigues, Pérez-Reverte e Erich Maria Remarque, entre alguns outros. Li muito menos do que gostaria, mas muito mais do que eu próprio antevi ao iniciar-se o ano num tempo em que tudo nos afugenta da leitura - do ruído circundante às contínuas invasões do nosso reduto íntimo através desses instrumentos omnipresentes no quotidiano do homem contemporâneo que são os computadores e os telemóveis, cada vez mais sofisticados, cada vez mais intromissivos.

A capacidade de concentração de cada de um de nós vai-se diluindo, por obra e graça destes aparelhos que nos põem em contacto com o mundo e com um sem-fim de amigos "virtuais" que nunca vimos mais gordos. A reflexão é inimiga desta constante fragmentação em que vivemos: é raro o filme que se vê até ao fim - mesmo numa sala de cinema - sem o contínuo piscar da luz do telefone portátil, adereço hoje obrigatório, espécie de prolongamento da mão de cada um.

E, no entanto, continuamos a ter direito ao silêncio. Continuamos a sentir necessidade de alguma solidão que nos permita o indispensável reencontro connosco próprios por detrás da espuma dos dias - tão ilusória, tão fugaz, tão enganadora. Continuamos a sentir necessidade daquelas horas de recolhimento a sós com um livro, com um filme, com aquele disco que há muito pretendíamos escutar sem a inevitável gritaria dos anúncios da TV em fundo ou o insistente apito das inúteis mensagens de telemóvel apregoando mais uma campanha de descontos daquele perfume que nunca iremos comprar ou daquela peça de roupa que jamais usaremos.

De tudo quanto pedimos que nos traga o Ano Novo, peçamos-lhe também alguns períodos de paz interior que nos permitam algo tão elementar como ir ao encontro de um livro adormecido numa estante. Talvez aquele que há anos queremos ler sem o conseguir por algum motivo fortuito. Ou revisitar aquele de que gostámos muito há uma dúzia de anos.

E não abdiquemos também do direito de pensar - arranjemos também algum tempo para reflectir. Para nos interrogarmos. Para não nos deixarmos levar pelos pregoeiros de serviço ou pelos vendedores de ilusões. "O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas", escreveu Vergílio Ferreira na sua Conta Corrente, cheio de razão.

Tentemos que o nosso 2013 não seja assim."

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Prémio Leya 2012

Nuno Camarneiro, de 35 anos, vence com Debaixo de Algum Céu. Um romance que é uma "exploração da ideia de purgatório", segundo o seu autor.
"Quase todo passado dentro de um prédio e em oito dias, entre o Natal e o Ano Novo, e cada inquilino atravessa durante esse período o seu purgatório pessoal".

Estou curioso.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Escrever é fácil: você começa com uma letra maiúscula e termina com um ponto final.
No meio você coloca ideias.

Pablo Neruda

domingo, 25 de novembro de 2012

Jesusalém


Neste romance, Mia Couto conta-nos a história de Silvestre Vitalício através do olhar de Mwanito, seu filho mais novo. 
Silvestre Vitalício vive num mundo muito próprio, não só fisicamente como psicologicamente. Vai para longe da cidade e estabelece um mundo só para ele e os filhos: Jesusalém. Ali todos são rebaptizados numa “cerimónia de desbaptismo”. 
“E fomos convocados um por um. E foi assim: Orlando Macara (nosso querido Tio Madrinho) passou a Tio Aproximado. O meu irmão mais velho, Olindo Ventura, transitou para Ntunzi. O ajudante Ernestinho Sobra foi renomeado como Zacaria Kalash. E Mateus Ventura, meu atribulado progenitor, se converteu em Silvestre Vitalício. Só eu guardei o mesmo nome: Mwanito”. Além destas personagens, há ainda a jumenta Jezibela (criação muito interessante com quem Silvestre Vitalício irá estabelecer uma curiosa relação), e Marta, que sai de Portugal à procura do marido traidor, e que será a peça chave no desbloqueio do romance. 
Com aquela cerimónia dá-se o corte com o passado. Para Silvestre Vitalício não havia passado, nem outro mundo além daquele. “Se não há passado, não há antepassados”. E também não havia mulheres. “Mulheres são como ilhas: sempre longe, mas ofuscando todo o mar em redor”. 
A ligação com o mundo exterior é feita através de Tio Aproximado, que vive na cidade e regularmente vai a Jesusalém levar mantimentos. A relação entre ele e Silvestre Vitalício é turbulenta, e uma das razões é a falecida mulher de Silvestre, que também é irmã de Aproximado. 
Silvestre Vitalício é um homem calado, prepotente e violento, e todos se submetem às suas vontades. Apenas a partir da segunda parte (o romance está dividido em três “livros”), quando surge Marta, é que aquele equilíbrio é quebrado. 
Com personagens bem definidas psicologicamente, Mia Couto traça uma história simultaneamente simples e complexa, com momentos de humor, ternura e violência, e leva-nos para uma realidade muito particular.

domingo, 18 de novembro de 2012

Não resisto a partilhar isto com os leitores que por aqui passam. 
Recentemente participei em dois workshops de escrita criativa, organizados pela Genius y Meios, com a formadora e escritora Margarida Fonseca Santos. 
Alguns dias depois do segundo workshop, surgiu a ideia de todos os alunos daquele curso fazermos um conto, sendo que cada um só poderia escrever 77 palavras (numa alusão ao blogue da escritora Histórias em 77 palavras). 
Os dois primeiros lotes de 77 palavras já estão. Faltam os restantes 23 escritores. 
Está a ser um exercício muito divertido, interessante e inesperado. Quando estiver concluído, aparecerá neste blogue.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Ler Lobo Antunes

Confesso que deve tratar-se de uma limitação minha. Nunca consegui ler António Lobo Antunes. As crónicas em revistas, apenas de vez em quando. Livros, nunca. Não consigo entender a sua forma narrativa.
Apesar deste handicap, há uma coisa que gosto neste autor: muitos dos seus títulos são uma surpresa agradável. Por exemplo, o último: "Não é meia noite quem quer". É pura poesia.
Já tinha o tinha feito com outras obras: "Eu hei-de amar uma pedra", "Não entres tão depressa nessa noite escura", ou "Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?".

sábado, 27 de outubro de 2012

Winston Churchill

Esta biografia de Winston Chuchill, da autoria de Sebastian Haffner, faz parte da colecção de livros de bolso "A minha vida deu um livro", lançada pelo Expresso.

O segredo não deve ser revelado no início, mas Winston Churchill teve uma vida alucinante. Entre o céu e o inferno, este político inglês de dimensão mundial viveu uma vida cheia de reviravoltas. 


Mudou duas vezes de partido, defendeu posições isoladamente contra as vozes maioritárias, teve derrotas e humilhações estrondosas, tinha um espírito militar mas é reconhecido como político, defendeu ideias próximas das de Hitler, demonizou Hitler e percebeu o perigo que representava antes de todos... Tinha a ideia de que o destino lhe reservava um desígnio maior, e encontrou-o quando ascende a Primeiro-ministro em 1940. 

Nascido em 1874 numa família de classe alta decadente, Winston Churchill foi um jovem medíocre, que falhou por completo na escola. Mudou esta percepção quando encontrou a sua principal vocação: a guerra. 

Participou em várias campanhas, em vários países, e irritou muitos políticos e militares com os seus escritos sobre as guerras de que fez parte. Ele tinha uma visão, ele sabia como fazer a guerra. Foram estas experiências na frente de batalha que lhe permitiram escrever e ter projecção no início do século XX. 

Partidariamente, começou no Partido Conservador, mas em 1904 “atravessou o corredor da Câmara” e tomou lugar na bancada dos Liberais. Passou a ser odiado e visto sempre com desconfiança. Mas é com os Liberais que chega ao governo, sendo ministro em várias pastas. Atinge o auge ao tornar-se Primeiro Lorde do Almirantado, ou seja, responsável pela Marinha Real Britânica, em 1911. “Com quase 37 anos de idade, Churchill estava, mais do que nunca, no seu elemento. Reinava agora sobre a maior armada do mundo e reinava de uma forma quase absoluta, sem a intervenção de qualquer outra pessoa. Reorganizou-a, constitui um Estado-Maior, virou todos os planos de guerra do avesso, ordenou que o aquecimento em toda a armada fosse convertido de carvão para óleo, mandou construir canhões maiores para os navios (na realidade, os maiores até à época), conseguindo tudo isto sem a oposição de almirantes ou capitães.” 

Mais tarde volta a ser ministro. E em 1924 volta a mudar de partido, juntando-se novamente aos Conservadores. Olhado sempre com desconfiança, vai escrevendo sobre as guerras e discursando sobre política. 

Entre 1929 e 1939, ou seja, entre os 55 e os 65 anos de idade, teve uma longa passagem pelo deserto. É neste período que escreve ainda mais, sobretudo sobre política internacional, mas nada do que escrevesse ou dissesse tinha o menor efeito. 

É sempre contrário às políticas de apaziguamento com a India, com Hitler, com os socialistas (o Partido Trabalhista surge na Inglaterra e irá acabar com a hegemonia entre conservadores e liberais). Este permanente espírito “do contra” será uma constante na sua convivência com os Primeiros-Ministros Asquith, Lloyd George e Chamberlain. 

Quando a Alemanha declara guerra à Inglaterra, em Setembro de 1939, Churchill é chamado novamente a assumir o Almirantado. Em Maio de 1940, torna-se Primeiro-ministro, sendo também Ministro da Defesa. 

Enquanto Primeiro-Ministro, terá uma acção incansável no sentido de derrotar Hitler. “Graças a Churchill, a Inglaterra atravessou-se no caminho da Alemanha em 1940, num momento em que esta quase parecia ter conseguido subjugar tudo à sua volta. Churchill obrigou a Inglaterra a agir contra os seus próprios interesses, mas de uma forma calculada ao milímetro. Esta guerra obrigou a Inglaterra a arriscar tanto a sua existência física como a sua existência económica. O país defendeu com êxito a sua integridade territorial, mas a economia ficou arruinada por muito tempo e o Império desintegrou-se. 

Graças a Churchill, não foi a Alemanha que passou a dominar a Europa, mas sim os Estados Unidos e a Rússia. Graças a Churchill, o fascismo deixou de desempenhar qualquer papel significativo no mundo, ficando o liberalismo e o socialismo a travar a luta pela primazia na política interna dos países.” 

Após a guerra, o governo cai e é derrotado nas eleições de 1945. Mantém-se como líder da oposição conservadora, voltando a ser Primeiro-Ministro entre 1951 e 1955, já fragilizado e com alguma política errática. 

Vive ainda até 1965.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Libros Libres

"Chama-se "Libros Libres" (Livros Livres, em português) e abriu o mês passado no bairro de Chamberí, em Madrid, capital espanhola. O nome é esclarecedor quanto à filosofia do espaço: trata-se de uma livraria onde, quem quiser, poderá levar um, dois, 10 ou 100 livros de forma totalmente gratuita.

Esta livraria inovadora, que conta também com um clube de vídeo, nasceu graças a uma iniciativa de uma organização não-governamental espanhola, a Grupo 2013, que se inspirou num local idêntico existente em Baltimore, nos Estados Unidos.

O conceito é simples. Os amantes da cultura que, num momento de crise, não tenham possibilidade de pagar pelos livros e de subscrever os serviços da livraria, podem ter acesso a eles sem qualquer custo, tudo com o objetivo de permitir a todos o acesso à cultura e ao cinema. 

Quem quiser, no entanto, pode tornar-se subscritor - a subscrição da livraria custa 12 euros por ano - para ajudar o espaço a crescer. Esta ajuda é também dada por particulares que oferecem os seus livros e também por algumas grandes editoras, que se associaram ao projeto e doaram vários exemplares de obras recém-publicadas ainda por estrear. 

Em declarações ao diário Clarín, Elisa Ortega, que integra a Grupo 2013 e é uma das funcionárias da livraria, explica que a reação das pessoas tem sido muito positiva: em média, há entre 20 e 30 visitantes por dia, na sua maioria jovens universitários e cerca de 50 novos livros são doados diariamente, o que tem enriquecido cada vez mais o espólio que terá agora entre 5.000 a 10.000 obras.

Projeto quer aumentar a riqueza intelectual

Para que o projeto continue a ser autosustentável, Ortega salienta que a ONG se responsabiliza por parte dos custos, contando com a generosidade dos subscritores na cobertura do restante valor. "Muita gente agradece-nos por levarmos a cabo esta tarefa e alguns doam-nos mais do que os 12 euros estimulados", revela a responsável, com satisfação.

Ainda assim, a essência da livraria não se perde. "Cada um faz o que pode, quando pode, e aqueles que pagam não dispõem de nenhum benefício adicional sobre aqueles que não pagam. O acesso está sempre aberto a todos os que necessitem", garante.

Os livros disponíveis interessam aos mais variados públicos, incidindo sobre temas tão diversos como a literatura infantil e juvenil, a política, a filosofia, a fotografia, a poesia e até o teatro. De acordo com Elisa Ortega, esta é "uma receita para a crise" para permitir que "as pessoas continuem a ler e se aumente a riqueza intelectual".

Clique AQUI para aceder ao site oficial da livraria "Libros Libres" (em espanhol)."

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Milagrário Pessoal

"Iara, jovem linguista portuguesa, faz uma incrível descoberta: alguém, ou alguma coisa, está a subverter a nossa língua, a nível global, de forma insidiosa, porém avassaladora e irremediável. Maravilhada, perplexa e assustada, a jovem procura a ajuda de um professor, um velho anarquista angolano, com um passado sombrio, e os dois partem em busca de uma colecção de misteriosas palavras, que, a acreditar num documento do século XVII, teriam sido roubadas à “língua dos pássaros”. Milagrário Pessoal é um romance de amor e, ao mesmo tempo, uma viagem através da história da língua portuguesa, das suas origens à actualidade, percorrendo os diferentes territórios aos quais a mesma se vem afeiçoando.” 

No fim, nem tudo é como parece ser… 

Uma das coisas que mais gostei neste livro, tal como noutros que já li do José Eduardo Agualusa, é ser embalado pelas palavras. Agualusa tem a arte de fazer magia com as palavras, levando-nos a territórios inesperados e que, recorrentemente, deixam um sorriso nos lábios. 

Por exemplo: 

“Me permita que lhe apresente Plácido Domingo! Este aqui não sabe cantar, não. Ainda assim eu o acho mais legítimo que o tenor. Ele é tão plácido e tão domingo que sempre que nos visita parece que o tempo abranda. A gente se esquece das horas.” 

“Os milagres acontecem a cada segundo. Os melhores costumam ser discretos. Os grandes são secretos.” 

“O que é a pátria?, perguntou. A voz era cálida e melodiosa como a de um hipnotizador. Uma pátria pode ser um cheiro. Um buquê de cheiros. Pitangas, terra molhada, o capim macerado. 
Ou um verso, acrescentou Alexandre Anhanguera, um simples verso. Há versos onde cabe inteira a minha pátria.” 

“Também eu cresci dividido entre a sala de estar e o quintal. Dividido? Escrevi dividido? Perdão, por vezes distraio-me e erro um pouco. Permitam-me que corrija: cresci acrescentado entre a sala de estar e o quintal.” 

“Difícil é um homem encontrar uma mulher diante da qual todas as restantes pareçam uma redundância.” 

Ao longo deste pequeno romance, vamos mudando de registo linguístico. Ora estamos no português de Portugal, ora vamos ao Brasil, ora estamos em Angola. Estas mudanças nas palavras e nas frases são um exercício muito enriquecedor e curioso. 

Adquiri este livro na feira do livro deste ano, onde tive oportunidade de pedir um autógrafo ao José Eduardo Agualusa. Um homem de uma simplicidade e simpatia assinaláveis.
Podem ler uma entrevista ao autor a propósito deste livro no Porta-livros.