Acho que não, mas a vida mudou (a forma como reli) alguns livros.
José Miguel Júdice, em entrevista à edição de Março da revista LER.
A sinopse é perfeita e convidativa:
E nós por cá:

Não se evita o sorriso ao ler o título deste livro de Robert Fisher e Beth Kelly.
Um velho pescador não pescava nada há 84 dias.

Na contracapa, e segundo o Observer, “Hornby pega nas ironias cruas da vida e raspa-as docemente para revelar jóias de verdade amarga e doce"... Fiquei curioso.
Este romance (quase diria uma série juvenil) acompanha a vida de um adolescente de 15 anos, em Londres, durante alguns meses. Trata-se de um jovem skater, como todos os jovens e como nós já fomos um dia: descontraído, sem cadeias, irresponsável, “estúpido” como ele mesmo não se cansa de repetir, sem nada que o preocupe na vida. Ele tem no quarto um poster de Tony Hawk, um skater famoso que ele admira e com cujo poster conversa (não apenas fala).
O Sam tem pensamentos e respostas típicas de adolescentes: parvos, sem dramas de maior, egocêntrico, irreverente, idiota, por vezes manipulador. Mas simultaneamente inocente e ternurento.
Um certo dia, ele acompanha a jovem mãe (de 32 anos) a uma festa de uma colega desta e conhece Alicia. Filha da aniversariante, e tão miúda como ele. Apaixonam-se. E o “inesperado” acontece: ela engravida.
A forma como encara este facto é absolutamente mirabolante, com uma sucessão de episódios alucinantes: ele consegue ser transportado para o futuro e ver o que o espera (ainda mais cómico na medida em que todas as outras personagens estão plenamente integradas nesse futuro, menos ele, que não sabe nomes ou factos que os outros já sabem); e chega até a fugir para uma cidade próxima de Londres, onde tinha passado um verão.
Em cada linha é evidente que este adolescente não compreende completamente o mundo que o rodeia. Baralhado, não sabe como reagir aos factos, não os sabendo interpretar de todo. Basta ver o tipo de respostas ou comentários que só ele consegue ter…
Sam é ao mesmo tempo personagem e narrador, o que dá à história uma roupagem muito interessante. Como ele próprio diz a certa altura, o que dá interesse às histórias são os sentimentos que os ligam, são o que os factos nos fizeram sentir. Porque a história pode ser contada em poucas linhas e ficar sem qualquer tipo de interesse. A diferença está nas sensações que nos provocou. E é isso que nos agarra neste romance, pois é como se estivéssemos dentro da cabeça do Sam, a ler-lhe todos aqueles desconcertantes pensamentos. Certeiros, divertidos, parvos.
Por exemplo, quando o filho nasce, no hospital, a mãe dele procura o neto. Pensamento do jovem pai: “os seus olhos varriam o quarto em busca de uma trouxa que pudesse ser um bebé. Acabou por encontrar essa trouxa ao meu colo, e arrancou-ma das mãos”. Isto é divinal!
Abordando a gravidez adolescente em Inglaterra (às tantas, sobre um relatório do primeiro ministro acerca disso, ele tem uma série de tiradas genialmente bem-humoradas), este romance traça um retrato divertido dessa situação, pegando nesta família e dissecando o que cada personagem representa (os jovens inconscientes, a mãe que passou por um caso semelhante, os pais que sonham com um grande futuro para a filha, a filha que quer um futuro normal, o pai “gajo” irresponsável, os jovens skaters…).
Há muito que não lia um livro assim "de enfiada". Pouco mais de uma semana para devorar a mirabolante história de Sam, por ele mesmo. Não será uma obra-prima, mas é divertido. E aborda esta problemática de uma perspectiva interessante.
"Ao folhear um dos antigos romances de Stacy, Jace descobre uma fotografia de uma casa com uma mensagem codificada. «Nossa, mais uma vez. Juntos para sempre. Até lá». O bilhete datava do dia anterior à morte dela. Obcecado pela necessidade de entender o suicídio de Stacy, Jace parte para Inglaterra determinado em descobrir finalmente a verdade. Não demora a perceber que a casa está assombrada por um obstinado fantasma, Ann Stuart, com quem se vê obrigado a lidar para resolver o mistério. Através das suas investigações e com a ajuda de uma bela jornalista, Jace vê-se forçado a estabelecer a conciliação entre a vida e a morte da noiva. “O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessimista; sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada, uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... sei lá de quê!”

Inicialmente, temos a trágica notícia para Julius: tem um melanoma, em fase terminal. Confrontado assim com o fim próximo, ele, psicoterapeuta, decide procurar um antigo paciente com o qual não teve sucesso. Philip, que agora também é psicoterapeuta, numa troca de favores, aceita participar no grupo que Julius está a acompanhar, como paciente.Aqui a questão que surge é sobretudo a solidão, o isolamento social, o que se esconde naquilo que se parece mostrar aos outros. Philip, inteligentíssimo e distante, especialista e fã de Schopenhauer, passa o tempo a citar as suas frases anti-sociais. De notar que Philip, anteriormente, foi um viciado em sexo, que todas as noites tinha de ter uma nova conquista e aventura.
O atravessamento da ponte, da barreira até ao mais íntimo de cada um, só acontece pela fragilização individual, pelo choque, pelo dar um passo
Philip, Pam, Tony, Bonnie, Rebecca, Gill, Stuart... e Julius. Problemas de isolamento, de relacionamento, de afecto, de alcoolismo, sexuais... que vão sendo esmiuçados em conjunto, tentando novas abordagens. As relações que se vão estabelecendo entre eles, as tensões, os gritos, vão permitir que cada um deles olhe para dentro de si e encontre a peça chave que desarmadilha o edifício em que estão prisioneiros. E quando começam a descer as barreiras, a ficar mais dóceis interiormente, dá-se o click.
Ambos são livros profundamente psicológicos e que fazem viagens profundas ao interior de cada um.
Como ponto comum aos dois livros, essa procura no mais profundo de cada um, extraindo as forças para continuar a andar, para olhar o futuro.
Por outro lado, enquanto “Quando Nietzsche Chorou” é mais positivo, foca muito a amizade, este “A Cura de Schopenhauer” centra-se nas disfunções relacionais, nas incapacidades para fugir ao isolamento e relacionar-se.
Inicialmente a leitura de “A Cura de Schopenhauer” deixou-me de pé atrás. Mas, a partir de certa altura, fui sugado pelo enredo e li convulsivamente para saber a “solução”. E muitas interrogações ficaram na minha cabeça, para mim. Foi como olhar ao espelho, sem filtros, sem maquilhagens. O abalo com epicentro interior é forte!
E fica um desafio para mim daqui a algum tempo: ler as duas obras sequencialmente. Se calhar será um abalo muito forte. Mas igualmente um desafio gigantesco numa perspectiva individual.
A eleição de Barack Obama como presidente dos EUA fica como uma importantíssima página na História.
Dewey